Noite de progressivo com Rush Project, Yessongs e Genesis Live

Por volta das 18 horas, formava-se uma fila gigante na calçada de onde se encontra o Cine Jóia, no bairro da Liberdade, bem no coração de São Paulo, naquele domingo ensolarado de 13 de agosto. Até onde se podia perceber, alteravam a rotina do lugar pessoas de todas as idades, predominando as de quarenta anos pra frente. Entre trajes normais, circulavam camisetas e referências de bandas como Genesis, Yes, Rush, Pink Floyd e outros ícones do Rock Progressivo. Todos os presentes ávidos por adentrar ao espaço onde outrora figurava um cinema voltado aos filmes de artes marciais japoneses. Hoje, até onde se podia supor, uma casa voltada a programações contendo shows internacionais de pequeno a médio porte, revitalizada e reformada, procurando conservar sua arquitetura original dos anos 60. No entanto, neste dia não seria o caso de sediar algo que não fosse oriundo do nosso tão vasto e multicultural país. Seria a vez do Brasil, a vez de três bandas cover da melhor qualidade. O que veríamos seria uma tripla apresentação com Rush Project, Yessongs e Genesis Live, as três com uma característica muito marcante em comum, todas capitaneadas por ninguém menos que o multitalentoso camaleão do rock paulista, nosso querido Roger Troyo, vocalista dos três projetos e de muitos outros, infelizmente não presentes na noite de gala.

 

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Liberdade

Parte importante do cenário progressivo de São Paulo já há mais de quinze anos, nosso querido músico resolveu desta vez nos brindar com uma verdadeira Roger Fest, para a qual todos estavam ansiosamente empolgados já há uns dois meses, desde sua divulgação, principalmente durante a apresentação maravilhosa da banda Renaissance (em 25 de maio deste ano), por onde voaram flyers de divulgação deste evento por toda a imediação do Espaço das Américas, onde aconteceu a incrível apresentação da banda britânica.

Os três projetos chamavam a atenção do público por sua qualidade, todos contando com músicos da melhor qualidade, preocupados em prestar suas homenagens às bandas originais beirando à perfeição, mas sem deixar de lado o sentimento. O que se vê nessas bandas não é só a cópia do trabalho dos outros, mas a alma do Rock Progressivo consagrado pelas bandas originais, imprimindo a cada apresentação o sentimento único de prestação de tributo e não simplesmente de covers. Alta qualidade, sincronia e sentimentos sempre são marcas registradas de todos os projetos em que o Roger se encontra. E isso se reflete nos músicos que topam as aventuras com ele. Garantia de emoção e diversão é o que se encontra em cada apresentação. Por essas e outras, sempre arrastam um público exigente, de alto nível cultural para seus eventos. E desta vez não foi diferente.

Por volta das 19:30h subiu ao palco o Rush Project, entoando Spirit of the Radio, permeada por duas grandes projeções do clipe da música nas paredes laterais que se encontravam em um ponto em comum na quina do palco, atrás dos músicos. Projeções, inclusive que ocorreram por toda noite, ilustrando cada música de todas as bandas que tocaram. Pelo formato diamantado da casa vibravam as notas dos clássicos eternos que fizeram e fazem a alegria da vida dos fãs. Dentro de cada viagem o público era inserido e bombardeado com imagens incessantes, num espetáculo altamente interativo onde os pensamentos não tinham outro foco senão o da onda progressiva que se instalou perfeita e sem dó, tornando o Cine Jóia pequeno para tanta imaginação, introspecção e satisfação. Não fosse por uma eventual falha na projeção da esquerda, acredito que muita gente ainda estaria viajando naquele ambiente lisérgico e impressionantemente elaborado.

Desfilaram pelo palco clássicos e mais clássicos, executados com precisão cirúrgica e uma competência que só quem é fã de verdade consegue produzir. Destaques para Jacob’s Ladder, Subdivisions, Freewill e Tom Sawyer, que nunca pode deixar de ser executada, tamanha sua importância para a história da banda original. Ao final o público estava mais do que satisfeito e ansioso pela próxima viagem, que não demorou muito para tomar o palco e arrebatar ainda mais nossos progressivos corações…

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Tomou o controle da situação então nosso Yessongs, sendo recebido de braços abertos. Tão competente como a banda anterior, os caras demonstraram segurança, maestria e domínio de cada nota entoada por ali, tanta perfeição que a banda original com certeza se curvaria a seu espetáculo se estivesse presente. Fomos brindados paralelamente ao som com belíssimas imagens de toda a carreira do Yes e as mais maravilhosas figuras de Roger Dean, ilustrador de boa parte do material dos anos setenta. Pérolas como Close to the Edge, And You and I, Changes entre outras fizeram o público delirar. I See You, canção do primeiro álbum do Yes, lá dos anos sessenta, foi executada com maestria e simplicidade, algo nunca visto por este que lhes escreve até então. E a junção de Roundabout com a segunda parte de Gates of Delirium quase provocou um infarto, com toda certeza, nos corações mais fracos!

Foi certamente a apresentação mais longa da noite, irrepreensível, impecável, impressionante. A segurança, leveza e confiança que Roger tem ao assumir os vocais dessa banda o faz parecer um garoto perfeitamente ambientado, no controle do quintal de sua casa, encantando a todos entre uma brincadeira e outra, divertindo-se no jardim de sua imaginação sem limites. Poderia até dizer que tudo aquilo era sem precedentes, não fosse a história desse projeto, que há mais de 15 anos, em todas as suas formações, vem encantando o público em todos os lugares onde acontece. Nós, meros mortais já completamente envolvidos por tanta vibração, ficamos em êxtase ao final da apresentação e ainda ansiosos para a próxima banda, o desfecho de uma noite de sonhos lúcidos. Não faltou sensibilidade, os músicos homenagearam dois amigos recentemente falecidos com imagens nas paredes de Paulo Mathias, amigo próximo de todos, falecido dia 13 de junho e do músico João Kurk, que também faleceu recentemente, muito conhecido da noite paulistana há muito tempo, integrante da banda Mr. Kurk.

De repente, pelas paredes da casa, dois enormes olhos azuis piscantes foram projetados. A clássica iluminação azul escuro se fez presente e a introdução de Watcher of the Skies atraiu a atenção de todos. O Genesis Live iniciava a reta final da viagem…. Não demorou para retornar ao palco nosso camaleão Roger, totalmente caracterizado com a fantasia de alienígena exatamente igual a que Gabriel usava nos anos setenta. A capa preta até os pés e as asas negras brotando de sua cabeça lhe imprimia um ar de morcego de outro planeta, enquanto as imagens projetadas alternavam entre os olhos gigantes (literalmente o palco olhava para nós) e figuras abstratas. Roger interpretava e cantava tão bem que poderíamos até suspeitar que o espírito de Peter Gabriel estava encostado, não fosse pelo fato do mesmo ainda se encontrar vivo. Cada detalhe, cada movimento, cada palavra nos remetia instantaneamente às antigas apresentações da banda original, numa perfeição absurda. Era o Genesis sem ser o Genesis! Era uma viagem no tempo.

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A cada nova (antiga) viagem nosso Roger (Gabriel) trocava de fantasia, sem perder o controle, ainda interpretando e explicando entre as canções, seus significados, com poesia e maestria daquele que entende muito bem o que está fazendo. Ainda por vezes o camaleão interpretava Phil Collins, sem perder o foco introspectivo e original, tão marcante principalmente da fase Gabriel. Destaques para a sombria Mama, a grande interpretação de Musical Box e as imagens projetadas que tornaram a experiência muito mais marcante e interativa. Fiquei pensando como seria legal se o Genesis Live interpretasse toda a obra The Lamb Lies Down on Broadway naquele espaço com aquela produção toda, como os slides originais projetados nas paredes…. Seria idêntica às apresentações do próprio Genesis, porém sem os acidentes que aconteciam com os slides na época. Fica a dica…

Ao final da noite, todos foram ovacionados pela plateia mais que satisfeita. Todos deixamos o Cine Jóia felizes e prontos para começar a semana empolgados. Na verdade, muitos de nós nem se lembravam que aquela era uma noite de domingo. Poderíamos tranquilamente ter ficado por lá até de manhã se os espetáculos continuassem, tudo passou tão depressa que o tempo se tornou uma relatividade ainda maior do que ele já é! Momento inesquecíveis como aquele com certeza entram para história de vida de todos os presentes! Obrigado, Roger Troyo, nosso camaleão do progressivo, por todo seu talento, paixão e por reunir músicos tão incríveis para nosso deleite!

— Marcos Falcão

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