Steve Rothery, Carioca Pinheiros

6 de dezembro de 2017

Pouca expectativa para este show. Não pelo artista, afinal de contas, incontestável é seu talento e sua relevância, pelo menos para os fãs do Marillion (sua banda de origem) e do Rock Progressivo em geral. O desânimo veio pela exploração financeira que todos passamos nesse país quando chega uma banda internacional. Tenho que deixar registrado aqui minha indisposição em só conseguir comprar meu ingresso em pessoa e em dinheiro vivo. Só assim para escapar das taxas abusivas. Nem cartão de débito ficava livre do roubo. Só em dinheiro mesmo para pagar o valor certo.

Mas, dissabores à parte, fui ao show esperançoso pelas canções antigas do Marillion. Principalmente pelo fato de que a banda referida já não toca mais essas músicas há tempos, então vi no espetáculo uma oportunidade única de conferir isso de perto, mesmo tendo que assistir a banda executar o álbum inteiro do Steve Rothery. Não que isso fosse uma tortura, longe disso, The Ghosts of Pripyat é uma obra instrumental progressiva da melhor qualidade, fazendo jus ao artista e todo seu memorável trabalho desde 1982.

O que eu havia visto na internet era isso. Foi um sufoco danado para conseguir uma mp3 desse disco, visto que, claro, não foi lançado no Brasil. Comprar o álbum pela internet também foi inviável. Primeiro pelo preço, segundo pelo tempo que isso levaria para chegar aqui. Então a saída foi ouvir no YouTube e baixar uma mp3 inocente. Assim pude conhecer o trabalho tão bem elaborado desse grande guitarrista. Felizmente havia um pequeno lote de CDs à venda no espetáculo, então quem ficasse ali boiando poderia levar pra casa o CD original.

Fascinante a criatividade desse incrível artista. Nota-se tanto no estúdio quanto ao vivo uma clara influência de Pink Floyd, Genesis e outros ícones do progressivo mundial. Mas isso não é novidade no som do Marillion, em parte graças a ele, para mim a alma da banda. Sempre foram muito evidentes, essas influências. O fato foi que em seu trabalho solo isso ficou bem mais claro.

O Carioca Pinheiros não estava lotado quando o show começou pontualmente no horário marcado. Mas era notável que quem estava lá entendia do riscado. Eram fãs do Marillion e de muitas outras bandas quem compunha a massa singela que se aglomerava à beira do palco quando Morpheus, canção que abre o álbum, começou a ecoar pela casa. Linda, viajante, a introdução perfeita para tudo que viria em seguida. Rothery e sua classuda presença de palco dominou logo de cara a atenção da galera entendida. O som de cara se mostrou perfeito e a banda que se juntava a ele no palco ganhou o respeito de todos quase que imediatamente. Músicos competentes, bem colocados, talentosos. Mais que depressa o show que seria solo passou a ser da banda de Steve, quase como um novo Marillion no palco.

Mais três músicas do Ghosts foram executadas seguidamente, Kendris, Old man of the Sea e White Pass, ganhando o respeito e os aplausos do público presente, que a essa altura já era bem maior. Muita gente chegou depois. Durante essas canções pudemos ver várias faces de Rothery que passeou do progressivo viajante ao toque de blues numa maestria jamais vista em sua banda de origem. O cara é muito bom e muito polido ao se dirigir ao público.

Depois dessas canções iniciais que veio a grande surpresa da noite. A partir dali seria só Marillion. Sim, meus amigos, o disco novo já havia dado seu recado. Não seria executado na íntegra e Rothery anunciou discretamente que só seriam aquelas quatro sendo o resto do show músicas de seu passado glorioso, algo que já não se via há um bom tempo.

E o cara cumpriu a palavra…

Slainte Mhath surgiu sem dó nem piedade, impressionando o povo todo. Surgiu um vocalista vigoroso que não era pior nem melhor do que o Fish ou o Steve Hogarth, mas cumpria muito bem seu papel, sendo apenas prejudicado um pouco pela equalização, que deixou sua voz mais baixa que o som poderoso da banda, mais forte que o Marillion, mas nem melhor nem pior. Uma banda incrivelmente dedicada em soar com perfeição, bem melhor que a banda que acompanha o Fish em suas turnês hoje em dia. Cinderela Search, Fugazi e Incubus foram as que se seguiram e que nos fizeram viajar como nunca antes. Dava para esquecer que era um show solo, tamanho o entrosamento dos músicos. Era como se fosse nosso bom e velho Marillion em 1984. Incubus ganhou uma força impressionante, principalmente nos solos. Chelsea Monday emocionou a todos, cheia de poesia e graça num momento em que fui surpreendido pelo abraço fraterno do amigo Roger Troyo, artista fenomenal que inclusive canta em um projeto do Marillion, entre outras bandas de alto nível, que tão maravilhado quanto eu, não tinha palavras para elogiar o que se via sobre aquele palco singelo, mas muito bem iluminado.

E foi depois dessa canção que veio a única pérola dos tempos de Hogarth. Afraid of Sunlight veio para encantar e nos levar ao fundo de nossas almas. Belíssima interpretação inesquecível.

White Russia foi a última dessa parte do show, mostrando de vez ao público presente que o cara não estava pra brincadeira. Ele queria mesmo reviver o passado glorioso e lendário do Marillion. Confesso que fiquei esperançoso de que Grendel pudesse ser invocada ali, pois a essa altura todas as minhas expectativas tinham se tornado desconhecidas. Mas infelizmente isso não aconteceu. Ao invés disso vieram Keylight, Lavender e Heart of Lothian, sintetizando lindamente o magnífico Misplaced Childhood. Todas tocadas com tanta força e emoção que sentíamos como se estivéssemos em um autêntico show do Marillion nos anos 80.

Saíram do palco depois disso, deixando uma multidão de insatisfeitos querendo muito mais. Claro que teve bis… Voltaram e executaram Sugarmice com muito sentimento, deixando o público apaixonado. Ainda teríamos uma nova surpresa após esse momento. Wish You Were Here, canção emblemática do Pink Floyd, foi interpretada na íntegra com muita maestria e criatividade, encerrando um show que parecia não oferecer mais do se propunha algo de um guitarrista solo, mas que de repente se mostrou como sendo um espetáculo sem precedentes, rico em magia e talento. A impressão que ficou foi a da viagem no tempo e a satisfação de poder ter visto canções que sempre sonhamos em ver, mas que a banda de origem já abandonou há anos.

Foi surpreendente e perfeito.

Uma apresentação como poucas, que esperamos voltar a ver um dia.

 

steverotheryrocktown

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