Caravela Escarlate: Uma viagem por toda a existência (e além)

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Já vem de longa data a qualidade e o carisma das bandas de Rock Progressivo do Brasil. Você até pode torcer o nariz quando se fala nesse estilo, e ainda mais quando se trata do nosso país e sua cultura, que há muito tempo vem colocando o Rock de uma forma geral cada vez mais no underground. Mas é um erro se pensar que só porque não aparece nas garras do povo se trata de algo ruim. Muito pelo contrário, aí que se encontram pérolas, voltadas a pessoas que pensam de uma forma diferenciada e não se vendem para modismos passageiros.

O Brasil se destaca no que se refere ao Rock, mesmo que não apareça como seria de se esperar. Boas bandas surgem o tempo todo, umas vingam e continuam, outras morrem na praia, muitas vezes por falta de empenho de músicos excelentes que se deixam levar pelo desânimo. Alguns saem do país, vão fazer sucesso lá fora, onde muitas vezes alcançam o reconhecimento que aqui nunca seria possível. Infelizmente nosso país, apesar de grande, não possui muito apoio à essa cultura.

Durante muito tempo se desenvolve um cenário progressivo de alto nível em diversas partes do país, sem se preocupar com nada senão à música, a arte e a sensibilidade. Exemplos como o do Anjo Gabriel, de Pernambuco, se destacam entre os fãs com grande relevância, mesmo não aparecendo nas camadas mais comuns. Nos anos setenta proliferaram bandas do estilo, como O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, entre outras. Umas que até hoje dão frutos para projetos impressionantes que só quem acompanha tem acesso. O Quaterna Requiem, banda que existe desde os anos oitenta, nos traz um som de qualidade, clássico, criativo e viajante, assim como muitas outras, quase desconhecidas, mas que mantém o ideal fantástico do Rock progressivo com tanta competência quanto suas influências na Europa e no mundo, onde o estilo cresce e se desdobra em diversas ramificações desde os anos setenta.

São nessas fontes e dando continuidade à missão brasileira de despontar no progressivo que chega a Caravela Escarlate, nos brindando com seu segundo álbum. De Nitéroi, no Rio de Janeiro, que a despeito do Funk, surpreendentemente desponta como um dos polos mais incríveis do Rock Progressivo, o trio David Paiva (baixo, guitarra, violões e vocais), Ronaldo Rodrigues (Teclados) e Elcio Cáfaro (bateria) tratam a música com seriedade, qualidade e talento. Isso sem falar na criatividade, que a certa altura do belíssimo trabalho autointitulado, chega a ser indescritível. Se o primeiro se chamava Rascunho, este pode se dizer que é o desenho completo.

Todas as letras, com exceção de Planeta Estrela, são de autoria de David Paiva, não tornando a participação dos demais algo menos importante. Muito pelo contrário, a paixão e o sentimento com que esses músicos executam cada minuto da obra, completa o conjunto em sua perfeição cósmica. O que se tem aqui é alquimia perfeita, procurada há séculos. Com toda certeza essa combinação única de talento, criatividade e emoção é perfeitamente comparável à pedra filosofal, pois assim como ela, aqui foi criado algo único e eternamente inesquecível. Vamos ouvir esse disco daqui há trinta anos e ele ainda vai soar esplêndido e atual. Com certeza uma obra para a eternidade. E bem aqui, no Rio de Janeiro, Brasil, para fechar a boca de gente desinformada e limitada que diz que o Rock acabou e que no Brasil não tem nada que presta.

Introduzindo freneticamente com Um Brilho Frágil no Infinito, lembrando a mítica Newschwanstein, uma banda alemã de apenas dois álbuns, sendo Battlement, seu segundo álbum, joia maravilhosa obrigatória na coleção de qualquer um que se atreva a dizer que ouve Rock Progressivo; a Caravela Escarlate já mostra que veio para voar por toda a existência e além. A presença de mugs e arranjos de teclado impressionantes faz desta canção e de todo o disco uma experiência única. A atmosfera seguida com sua introdução tribal, num arranjo empolgante de percussão e teclado, permeado pelo baixo, vem para ressaltar a introdução da faixa anterior e mostrar, inclusive nas letras, que a embarcação não vai ficar restrita ao chão e nem à nossa realidade propriamente dita. Ela nos prepara para a viagem cósmica, interdimensional e filosoficamente subjetiva que está por vir. Encanto é o mínimo que o ouvinte vai sentir ao longo da obra de rara beleza.

Gigantes da Destruição com sua letra de alerta nos faz refletir sobre o que estamos fazendo com nosso mundo, nos coloca como observadores das consequências dos nossos atos e nos remonta a coisas mais antigas, que hoje soam como velhas profecias. As letras de Tomorrow and Tomorrow, do lisérgico King Crimson, em 1969, já falavam das consequências das ações do homem no mundo e do futuro (hoje presente) que teríamos que enfrentar. E a Caravela Escarlate ainda nos traz um quadro pior, mesmo que acompanhado por arranjos lindíssimos e de alto nível. A canção é bela e a letra real. Assim como Blind the Beautiful, do Fish, ex vocalista de uma das mais preciosas bandas do Rock Progressivo, o Marillion. Nessa canção ele destaca que não consegue mais ver beleza no mundo e nos leva às mesmas reflexões que nossa fantástica Caravela. Tem sido uma constante no mundo de hoje esse tipo de aviso. É a música se prestando a orientar e educar, não deixando a beleza de lado por causa disso.

Toque as Constelações tem a missão de desligar o básico. Ela coloca nosso pensamento nas estrelas e nos faz voltar para nossa própria espiritualidade. Iniciando calma, tranquila, quase como uma bela canção noturna dos anos setenta, nos traz esperança de que tudo pode e será sempre melhor, nos enchendo de bem-estar. Essa é feita para ser ouvida com as luzes no mínimo, de preferência nos braços de alguém importante, tão disposto a viajar quanto você. Os arranjos de teclado são um convite à fantasia e o baixo marcante parece a melodia de nossas melhores noites.

Futuro Passado vem com uma mensagem de esperança, com seus arranjos rápidos e precisos, serve para acordar os ânimos da viagem anterior. Essa canção tem uns toques de jazz que valorizam demais a composição, com solos de guitarra muito bem colocados. Nos prepara para continuar a viagem na instrumental Cosmos a seguir, que não precisa mesmo de letras para ser entendida na expressão de seu título. Em seus oito minutos e meio, introduzida pelo baixo e o teclado, nos arranca de repente da crosta terrestre, nos jogando sem dó nem piedade, corajosamente indo onde nenhum homem jamais foi… (a frase não é coincidência). A jornada nos leva à profundidade da viagem do álbum, com arranjos de teclados ainda mais impressionantes, atrevendo se a ser mais criativa do que a própria criatividade. Nos controles da nave escarlate, somos impelidos ao espaço profundo de nossas zonas de prazer mental, estimulando nossa mente aos mais incríveis pensamentos, sem a necessidade do uso de drogas. Aqui a música é o estopim dos mais incríveis sonhos.

E quando pensamos já ter viajado por tudo que era possível, Planeta Estrela vem para fechar a viagem, canção de coautoria da banda com Tadeu Filho (letras de David Paiva), como a imaginação fértil das mais inteligentes crianças, essa música nos coloca a observar o cosmos mais uma vez, questionando discretamente nossa solidão no Universo. Mostrando a possibilidade de outro sistema solar, talvez mais incrível ou tão incrível quanto o nosso, lidando com o imaginário de cada um. Uma introdução que nos leva a ouvir os motores da Caravela, logo marcada pelo baixo e toda massa sonora, que a esta altura já não economiza mais na onda progressiva, nos remetendo na cara dura à coisas mágicas como Eloy e Grobschnitt, entre outras… Repentinamente a massa sonora cessa e fica só um sutil arranjo de teclado, que logo é invadido pela cozinha mágica do baixo e bateria, tornando a viagem final capaz de arrancar lágrimas dos olhos onde os ouvidos estão mais atentos…

E tudo isso sem sequer entrar na letra! Meus amigos, confesso com muita emoção mesmo, que não ouvia uma coisa dessas em pleno século XXI, no Brasil, há muito tempo! Essa viagem, assim como o álbum inteiro, vem a ser uma peça feita para durar eternamente. Ficção e realidade, já não sabemos mais o que é o que no decorrer dessa coisa esplêndida. Os arranjos sutis e muito bem feitos de guitarra aparecem na medida certa exatamente nos momentos certos, coisa de quem entende, de quem usa a alma principalmente como inspiração para compor e tocar um trabalho de tanta espiritualidade, sensível a ponto de cativar os corações mais sensíveis! O decorrer e a conclusão épica dessa música são capazes de nos levar às mais distantes paisagens de nossa mente, ao interior de nossas almas, nos dizendo por entre linhas que sonhar é uma dádiva e que cada um de nós é capaz de realizar aquilo que quiser e construir sempre um universo novo a cada dia, a cada escolha, a cada novo caminhar…

A Caravela Escarlate, embarcação Interestelar, Interdimensional, cumpre seu papel nessa obra inicial de alto padrão. Nos tira de nossas realidades, nos mostra a força da música, do Rock Progressivo e da arte. Para os afins, um deleite de sonhos e imagens indescritíveis e sem limites. Um disco único que tem a responsabilidade de introduzir uma das mais impressionantes bandas brasileiras do estilo e deixa claro que muito mais ainda deve vir.

Esperamos que a Caravela Escarlate continue a voar por paragens ainda mais distantes, afinal de contas, lançar um disco desses leva à grande responsabilidade de fazer igual ou melhor. Muito gratificado em conhecer esse material no restinho desse ano de 2017, que me trouxe coisas lindas. Feliz por ter essa obra na minha coleção e esperançoso de ver a banda ao vivo um dia e continuar acompanhando o trabalho deles.

Recomendo a todos. Garantia de viagem das mais incríveis!

Vida longa e prospera à Caravela Escarlate!

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