StringBreaker & The StuffBreakers: Blues Rock na calçada da Paulista

Poderia ter sido uma sexta feira como qualquer outra na escola de manhã. Mas já começou diferente. Quando cheguei à escola não havia alunos. Era dia de reunião de pais e só eu e outro professor desavisado não sabíamos da novidade. Enfim, melhor, pois após o atendimento dos pais poderíamos ir para casa mais cedo. O fato foi que um pouco antes de ir embora vi um convite no Facebook. O Guilherme Spilack, guitarrista fantástico do StringBreaker, estava me convidando a ver a banda no final da tarde na Paulista.

Tive dúvidas por uns minutos, mas assim que saí da escola resolvi ir. Uma apresentação como aquela havia caído como uma luva na minha tarde vazia. Saí mais cedo, passei em alguns lugares da Vila Mariana que gosto de ir às vezes, afinal ali foi minha vizinhança por quase toda minha infância, então tenho boas recordações de lá. Fui à padaria Bella Mariana que fizeram na rua onde morei, comi um lanche, e subi para a estação Santa Cruz do metrô, caminhando tranquilamente pelo bairro.

Cheguei à Paulista relativamente cedo e desfrutei de uma boa caminhada. O dia estava lindo e a tarde perfeita com todas as cores e tons nostálgicos dessa avenida, palco de diversos dramas da minha vida até então. Tantas recordações, tantos lugares e pessoas, tantos momentos. Sempre um grande prazer estar nesse ponto tão peculiar da minha cidade querida, mesmo com todos os seus problemas.

Visitei o Shopping Cidade de São Paulo, onde aguardei tranquilamente o horário marcado. Estava saindo do local quando vi, do outro lado da avenida, os caras montando seus equipamentos numa tranquilidade de dar inveja. Era quase seis e meia e a galera da Paulista já se apressava saindo de tudo quanto era prédio, o trânsito piorava e eu sabia que aquela hora era a hora em que todo mundo voltaria para casa. Plena sexta-feira, véspera de um baita feriadão, muita gente na rua indo para todo e qualquer lugar. Mas isso não me abalava, pois eu voltaria a noite, depois do espetáculo, na paz e tranqüilidade. Meu carro ficara num estacionamento 24 horas na Rua Santa Cruz então não havia com o que me preocupar, nem trânsito eu ia pegar na volta.

Fui até a banda e cumprimentei todos. Fiquei ali por perto, a postos esperando o show começar quando o Guilherme se aproximou e conversamos um pouco. Assim como os outros dois componentes, Sérgio Ciccone na bateria e Dilson Siud no baixo, o cara é uma simpatia. Não pude deixar de compará-lo com Tommy Bolin, guitarrista falecido que tocou no Deep Purple no final dos anos setenta. Ele realmente se parece com o cara com o cavanhaque, óculos e calça boca de sino. Isso sem falar no estilo de guitarra, o cara toca muito!

Falamos sobre a banda, fiquei sabendo que o terceiro CD está prestes a sair, inclusive eles já estão tocando uma canção nova que é espetacular, assim como todo o trabalho dos caras. Falamos também sobre o Children of the Beast, onde ele toca canções do Iron Maiden e ainda trocamos umas boas ideias junto a outro amigo que estava ali esperando o show. Foi um momento descontraído que não durou muito, pois logo o show começou.

O trio tem muita energia e precisão, tocando material dos dois CDs já lançados, que inclusive estavam ali à venda, ganhavam a atenção dos transeuntes e de gente que se aproximava e participava pegando cartões e alguns dançando animadamente. A guitarra incendiária se sobrepunha aos sons da avenida, harmonicamente ganhando os corações dos que se atreviam a dar uma paradinha para conferir, junto à massa sonora produzida pela baixo e bateria. Eu filmava tudo e fotografava empolgado. Com uma fonte de energia reserva, desta vez poderia registrar o show todo.

Da primeira vez que os vi eu estava indo ver o Genesis Archives na frente da FIESP. Não pude registrar quase nada, pois cheguei ao final e acabei ficando sem energia no celular. Naquela ocasião comprei os dois CDs. O pouco que vi já me havia revelado que aquele som era muito bom. De fato. Quando ouvi os trabalhos em casa fiquei maravilhado. O som do trio é uma mistura de blues, rock clássico, progressivo e até mesmo metal setentista, cheio de groove, cheio de criatividade contagiante! Para mim os identifico com o Deep Purple do começo de carreira e depois com a fase do Coverdale, Hughes e Bolin. Também encontro muito Led Zeppelin e Rush no som dos caras. Inclusive eles tocam alguns riffs dessas bandas. Tudo sem vocal, trata-se de um som instrumental, onde a guitarra é quem fala. Não sentimos nenhuma falta de um vocalista, tão expressivo que é o som desses caras. Tudo muito bem trabalhado, uma bateria espetacular e baixo que se mostra fundamental e muito bem executado. Dilson Siud é o novo membro do trio, visto que o antigo baixista deixou a banda. Ele era muito bom também. Mas a substituição caiu como uma luva e não afetou o trampo em nada. Esse cara de Pirassununga não é 51, mas é mais que uma boa ideia! Toca muito.

E tudo estava na mais perfeita paz, com todo mundo curtindo o espetáculo gratuito de alto nível, apesar do barulho do gerador de energia, que de fato a gente só ouvia entre as músicas, quando de repente encostou uma viatura da PM e os policiais interromperam o show. Sim, meus amigos, em plena Avenida Paulista, bem na hora do rush, com barulho para todo lado, hordas de transeuntes barulhentos e carros, e ônibus, buzinas, de tudo que se possa imaginar de ruído. Um morador desconhecido chamou a polícia com a intenção de acabar com apresentação. A alegação era de que o barulho estava incomodando e que ali seria zona residencial. Não que não more ninguém na Paulista, claro que mora… Mas se incomodar com um show na calçada às sete horas da noite? Não parecia real. Nem os policiais compraram a ideia. Tanto que após uma breve negociação pacífica, apenas pediram pra diminuir um pouco o volume e se foram.

O show continuou a todo vapor, mesmo um pouco mais baixo, e logo encostou a viatura novamente e depois veio outra. De fato São Paulo não tem muito mais com que se preocupar do que com o som dos caras… Não parecia haver ocorrência alguma, muito menos criminalidade. Desta vez os policiais vieram e disseram que o distinto morador havia se queixado novamente e o tenente deles os mandara voltar. Esse cara que reclamou com toda certeza deve ser alguém que não teve nem ao menos a decência de aparecer e se mostrar, para mim um ato de covardia. Penso que se eu reclamo também tenho que ter a atitude de me mostrar, se for o caso, explicar. Afinal não havia crime nenhum sendo cometido e os envolvidos também não eram pessoas de alta periculosidade.

E desta vez o show parou. Foi um tal de lei pra cá e lei pra lá que envolveu a banda, os soldados, o cabo, o sargento e até mesmo o tenente, numa perda de tempo sem precedentes. No fim não havia lei alguma que proibisse o show dos caras naquele local àquela hora e pior, se houvesse, só poderia ser aplicada se a banda tivesse quatro ou mais membros, algo que surpreendeu a todos. Ou seja, nada existia que pudesse caracterizar perturbação de uma paz que convenhamos, nem existe na Paulista e que pouco mais tarde, supostamente, seria mesmo quebrada se existisse, pois o Carnaval chegaria impiedoso e barulhento, talvez até mesmo com direito a um trio elétrico para as noites seguintes no mesmo local!

Descabido, inútil e completamente desnecessário esse evento bem no meio de um show gratuito e de alta qualidade. Cultura de verdade bem ali pra todo mundo e ainda tinha alguém reclamando. O reclamante, seja ele quem for, com certeza deve ter sofrido bastante nas noites que se seguiram, pois se o StringBreaker incomodou, imagina o Carnaval…

Enfim. Houve uma negociação que durou quase uma hora, onde ao menos sete policiais perderam seu tempo e no fim todos levaram cartões da banda e se foram deixando o show continuar, pois havia sido provado que não tinha cabimento tal reclamação e o evento pôde continuar, mesmo com o volume mais baixo, o que não prejudicou de forma alguma, juntando até mais gente no cair da noite do que havia antes da interrupção.

Tudo seguiu maravilhoso até as 22h quando a banda encerrou e agradeceu a todos pela paciência de terem esperado a resolução do problema inútil.

E o reclamante continuou sendo um mistério. Mas seja lá quem for, teve que engolir o resto do show. A polícia fez sua parte. E inclusive não voltou mais. Houve um questionamento durante as negociações sobre decibéis. Ali o ruído só poderia chegar a 65 decibéis. Mas só o barulho dos veículos ultrapassa e muito esse número…

Mas de fato, resolvido esse percalço pudemos continuar a curtir o som dos caras que nada tinha de barulho, mas sim de qualidade e bom gosto.

Hoje em dia rock de categoria e a música de qualidade jamais são encarados como perturbação da paz, principalmente na Paulista, onde todos os domingos inúmeras apresentações de diversos artistas se espalham pelas calçadas, nos proporcionando uma diversidade cultural de primeiro mundo, sem nenhum problema!

Por isso aquele incidente era algo muito mais que descabido. Fica aqui registrada a minha indignação e sentimento de vitória, pois no fim das contas o show seguiu e foi espetacular! Com direito até a medley de Beatles com Led Zeppelin, uma genial combinação que empolgou a todos.

O StringBreaker and The Stuffbreakers, apesar do nome difícil constrói um som gostoso, bem elaborado, cheio de groove e sentimento, nos levando de volta aos anos setenta, combinando com a cidade. Pra mim a trilha sonora perfeita não somente para a avenida em questão, mas para a cidade toda, onde o rock faz muita história já há muito tempo.

Prometeram voltar no dia seguinte, mas tocariam em outro ponto da Paulista para evitar o morador misterioso. Os caras esbanjam simpatia e bom humor, isso sem falar num talento sem igual. Sem dúvida mais uma jóia do rock que tenho o privilégio de seguir.

E junto a eles segue a irmã do Guilherme, a simpática Vitória Spilack, mocinha muito meiga e doce, que fica ali ao lado numa mesinha vendendo o material do trio. Muito legal a irmã dar esse apoio ao trabalho do irmão e da banda. Confesso que a confusão me fez esquecer de comprar uma camiseta, mas da próxima vez não escapa.

Esses caras são pra vestir a camisa! E quem duvida vai lá ver. Visite a página deles no Facebook e fique por dentro das datas dos shows de rua.

Dia 17 eles tocam Junto ao Mamute e King Bird no Teatro UMC a preços bem justos. Aconselho a todos que se puderem não deixem de conferir um espetáculo dos caras.O maior risco que se corre é de se tornar viciado no som, pois quem curte Rock de qualidade vai se apaixonar.

Aguarde mais novidades e uma bela entrevista que vai rolar muito em breve!

StringBreakers and The Stuffbreakers.

Uma iniciativa de coragem e qualidade em meio a tanta coisa de gosto duvidoso que nos cerca a cada dia, nesta época onde a música boa tem se tornado cada vez mais escassa.

stringbreakerroadrock

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