Steve Hackett: Espaço das Américas

Quando Peter Gabriel deixou o Genesis o som da banda e sua criatividade sofreram grandes mudanças. A Trick of The Tail, primeiro registro com Phil Collins nos vocais traz uma sonoridade mais simples, letras menos complexas e uma certa acessibilidade, sem deixar de ser Rock Progressivo, mas que seria um pouco mais acentuada com o passar dos anos, principalmente nos anos oitenta. Wind and Wuthering, próximo álbum, seguiu a mesma trilha de seu anterior, fazendo com que ambos entrassem para a história como os últimos registros progressivos do Genesis com Steve Hackett presente. Não foi à toa que o próximo se chamou… And Then There Were Three (E então lá estavam três).

A meu ver as mudanças eram inevitáveis e de forma alguma tornaram o Genesis uma coisa pior, apenas algo diferente, buscando novos grupos de fãs. O fato foi que grande parte das antigas sonoridades se deram devido também à presença de Steve Hackett, personalidade significativa da alma progressiva da banda. Ainda antes de sair, lançou  seu primeiro registro solo, Voyage of Acolyte, o que deu início a uma nova carreira que muita gente disse ser mais ou menos o que sua antiga banda seria se ele não tivesse saído.

stevehackett

No entanto o destino quis que seus amigos seguissem por caminhos diferentes enquanto que ele fosse justamente na direção oposta, alimentando uma legião de fãs com um progressivo inteligente que só veio a reafirmar seu talento e sua criatividade com o passar dos anos. Graças a isso, a parte mais mítica do Genesis foi mantida viva durante todos esses anos.

Sem deixar de lado seu trabalho, Steve vem abordando principalmente em suas turnês, o trabalho mais antigo de sua ex banda, com releituras e execuções clássicas dos áureos tempos de viagens, para o deleite dos fãs mais antigos espalhados pelo mundo todo.

Mais uma vez no Brasil (a primeira vez foi ainda com o Genesis em 1977), Steve Hackett trouxe um espetáculo tão grandioso quanto o da última vez que esteve por aqui em 2015, porém num tom um pouco mais autobiográfico. Além das canções do Genesis, desta vez tudo seria complementado com sua carreira solo, inclusive o GTR, projeto que fez com Steve Howe em 1986 e o álbum novo lançado em 2017, The Night Siren. Tudo isso mais os clássicos da Era Genesis, ou seja, garantia absoluta de um show histórico, para ficar eternamente marcado na vida dos fãs. Passando por Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói e belo Horizonte, a turnê brasileira foi um sucesso absoluto.

Em São Paulo, no último dia 22 de março, apesar de ser uma quinta-feira, o Espaço das Américas recebeu um massivo público experiente e exigente, gente de diversas culturas, músicos e fãs de todas as idades. Havia famílias inteiras reunidas nas mesas para prestigiar o grande artista e seu material de alto nível. Chegamos ao local, eu e minha esposa Kátia, grande incentivadora da música em geral, e fomos surpreendidos por uma fila para tirar fotos junto ao imenso pôster do artista, situado à esquerda da entrada do ambiente do show. E foi quase no mesmo instante que encontramos o grande Roger Troyjo, sempre presente em eventos de música progressiva, todos grandes referências em seus trabalhos junto ao Genesis Live, Yessongs, Rush Project, entre outros tantos projetos de excelente qualidade que mantém o Rock Progressivo clássico vivo nas noites paulistanas, já há muitos anos. Com alegria e entre abraços e rostos felizes, recebemos de sua mãos o flyer duplo trazendo duas boas novas; de um lado o festival Totem Prog que vai reunir Som Nosso de Cada Dia e Terreno Baldio (onde hoje o Roger ocupa o histórico lugar de vocalista), que deverá ocorrer nos dias 20, 21 e 22 de abril, e do outro lado o Genesis Live que ocorrerá no MIS (Museu da Imagem e do Som) no dia 23 de junho, onde também nosso amigo encara os vocais. Inclusive neste último fomos informados que a cenografia será algo muito especial, tornando com toda a certeza esse espetáculo mais um momento histórico para os fanáticos por Genesis.

Enfim nos despedimos e adentramos a pista com mesas lotadas por todos os lados. Logo nos sentamos confortavelmente e fomos agraciados com o início do show. Tivemos o prazer de conferir na primeira parte momentos essenciais da carreira do músico, que no centro do palco, envolto em luzes coloridas de alta qualidade, iniciou com Please don’t touch e Every Day, assumindo de leve uma sonoridade que lembrava um pouco o Yes em seus primeiros dias. A qualidade e a pureza do som agradaram a todos de imediato. Acompanhado por uma banda muito competente, Steve Hackett logo nos trouxe uma nova canção de último álbum, Behind the Smoke que impressionou de imediato, por sua pegada cadenciada e um excelente trabalho de flauta transversal de Rob Townsend, chegando a se parecer com algo do Jethro Tull em seus trabalhos mais recentes. Essa música me lembrou também um pouco de leve algo de épico, tal como coisas do antigo Rainbow, mostrando que Steve é um cara versátil e mantém seu talento mesmo quando a viajem soa um pouco mais pesada do que o habitual.

Entre outras magníficas canções, destaque para When the heart rules the mind, momento mais acessível, de seu antigo projeto com Steve Howe, o GTR. Canção que agradou por sua perfeita interpretação, mostrando uma banda inteligente, bem planejada e capaz de tocar com maestria desde o complexo até o mais simples, como ficaria bem claro ao longo da noite. Shadow of Hierophant fechou a primeira parte do espetáculo levando a galera ao delírio total, com show de luzes e fumaça, colocando todo mundo literalmente dentro da melodia alucinada e crescente que se fez presente no local, dando a entender que chegávamos a um caminho sem volta para um mundo de sonhos e fantasias, como de fato foi…

stevehackett2

Parecia um final apoteótico, mas era só impressão. Ainda faltaria muito para isso. Após os aplausos empolgados e que pareciam intermináveis, Ned Sylvan, o fantasmagórico vocalista, uma figura no mínimo enigmática, nos trouxe Dancing with the moonlit Knight que seguida por One for the Vine satisfez os corações de todos e deixou bem claro que a partir dali tudo poderia acontecer. Inside and out foi a próxima canção, parte do ep Spot the Pigeon, dos tempos do Wind and Wuthering, essa canção foi uma das últimas coisas feitas coma participação de Hackett e foi uma surpresa para muita gente em todos os sentidos.

The Fountain of Salmics foi executada quase que magicamente, na mais alta maestria, dava até para esquecer que não era o Genesis que estava ali. Todo o drama e personalidade de Ned o deixavam muito parecido com Peter Gabriel em seus mais introspectivos momentos.

Durante todo o show as tentativas, muitas vezes bem-sucedidas, de Hackett falar em português entre uma canção e outra, transmitiam ao público um desejo de se aproximar mais e declaravam a todos o seu amor por estar ali, praticamente nos contando toda sua vida através das músicas. Muito talento, carisma e simpatia.

Firth of Fifth não poderia faltar e foi executada desde o início, com a bela introdução de piano e seus solos emocionantes, para mim um dos mais belos solos da história do Rock. Destaque novamente para a belíssima flauta de Rob Townsend.

The Musical Box e toda sua vibração assombrada veio com um público ainda de pé, se recuperando do esplendor da canção anterior. Foi o momento mais ‘’metal’’ do espetáculo. Perfeita, irrepreensível. Sem as fantasias e toda aquela

interpretação de Gabriel, mas fazendo o mesmo efeito. Foi então que ao final dessa música veio talvez o maior momento da noite…

Supper’s ready deu o ar de sua graça, com todo seu caótico desenrolar e em toda sua magnífica complexidade. O público acompanhou o drama apocalíptico romântico do começo ao fim e se maravilhava com cada nota, aplaudindo de pé após os mais de vinte minutos de duração. A banda foi ovacionada intensamente. E quando parecia que havia chegado o fim, o bis veio com Los endos, numa versão espetacular, encerrando de fato o show com toda apompa que lhe era devido, trazendo o Genesis para um público fiel, que em pleno século XXI tem a oportunidade de rever essas obras de um passado distante que parecem resistir ao tempo, atravessando as gerações, ficando cada vez melhores.

Depois de tudo isso fomos para casa satisfeitos e sabendo que uma nova oportunidade virá em que poderemos ver Steve Hackett novamente, pois parece que o Brasil já se tornou rotina em suas turnês. Muita gente pode se perguntar se um dia ainda haverá uma reunião do Genesis com todos os membros antigos. Mas depois de ver Phil Collins e Steve Hackett este ano, eu me pergunto…

Será que precisa?

Steve Hackett Band:

Steve Hackett – guitarra

Ned Sylvan – vocais

Roger King – teclados

Jonas Reingold – baixo

Gary O’Toole – bateria

Rob Townsend – flauta, sax e percussão

Set List:

Please Don’t Touch

Every Day

Behind the smoke

El Niño

In the Skelton Gallery

When The Heart Rules The Mind

Icarus Ascending

Shadow of the Hierophant

Dancing With The Moonlit Knight

One For The Vine

Inside and Out

The Fountain of Salmics

Firth of Fifth

Supper’s Ready

Los Endos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: