Momento

Apago a luz principal do meu ambiente de paz. Fico só com o abajur. Assim está bom. Meu quarto, onde toda minha vida se espalha pelas coleções de discos, CDs, livros, revistas, fotos. Lembranças de cada momento que se foi sem nunca ter ido. Para mim o tempo não passou. Aqui dentro todas as épocas se misturam e convivem em harmonia, assim como os gêneros de Rock. Na meia luz deste ambiente, sou envolvido pelas bandas, sonho, viajo sem limites, sem tempo…

É neste ambiente que passo boa parte do meu tempo livre. Ouvindo música aqui dentro me acalmo, muitas vezes resolvo meus problemas, crio, às vezes adormeço. E quando isso acontece sou transportado para lugares além da imaginação. Desta vez me vejo entre paisagens lindas de árvores extradimensionais que envolvem todo meu ser.

Jardins de flores gigantes, multicoloridas espalham-se até onde a vista alcança. Sou levado a caminhar por entre essas belezas que parecem me observar, me espreitar, como se quisessem me dizer algo, me saudar. Uma canção me guia numa direção desconhecida. É Watcher of the Skies do Genesis, justamente a música que estava ouvindo antes de chegar nesse ambiente.

Passo por enormes salões onde posso ver diversas bandas tocando suas canções com perfeição. Visualizo músicos tocando Metallica na sua melhor fase, tocando Ride the Lightning na íntegra com Cliff Burton no baixo, a galera enlouquecida apreciando cada momento do show.
Do outro lado, magicamente independente, vejo Dio cantando Heaven and Hell e aqui tudo é possível, um show não interferindo no outro, centenas de pessoas felizes! Mais ao fundo lá está Jimi Hendrix solando como se estivesse vivo ao lado de outros músicos. Dá para ver o BB King acompanhando o show com sua guitarra acústica.
Caminho mais um pouco entre as massas e chego a outro palco, um pouco mais tranquilo, lá está ela, Elis Regina, cantando lindamente acompanhada por Tim Maia. Uma combinação muito louca. Penso que morri, estou no Paraíso. Mas logo tiro esse pensamento da cabeça, pois não importa mais.

Nesse lugar sem fim, públicos imensos se espalham pelo festival mais inacreditável da existência! Os estilos aqui convivem em harmonia, um não interfere no outro, os sons se separam magicamente e a gente pode curtir tudo ao mesmo tempo agora e compreender cada diferença.
Tudo impressionante, tudo mágico…
Gary Moore está lá no palco do Hendrix e entoa Still Got The Blues de uma forma única. Na bateria Cozy Powel senta o braço. Imaginem isso? Músicos tão diferentes, aqui se completam sem problema algum.
E no palco da Elis aparece Tom Jobim, Dorival Caymmi e ninguém menos que Luiz Gonzaga… A música que esse trio entoa é impressionante e diferente de tudo que poderia existir na Terra. Até a sanfona do Luiz soa diferente e se encaixa na MPB mais estranha do Universo.
Aqui o tempo não passa e a gente pode curtir tudo.
Mais ao longe, junto a uma multidão eufórica, noto três figuras elétricas e logo meus ouvidos detectam Iron Fist… O Motorhead inteiro está ali, tocando como nunca antes.
As luzes são vívidas, coloridas, gigantescas. E são naturais, não existem lâmpadas, elas vêm do infinito. Assim como o som. Não vejo caixas, não vejo nada. Parece que a música soa direto dos instrumentos e vozes.
E por falar em voz, um dos palcos aparece do nada e Fredie Mercury desfila seus talentos cantando de forma perfeita We are the Champions acompanhado pelo saudoso Chris Oliva na guitarra.
Todos aqui são jovens. Não existe velhice, não existe cansaço. Somos todos um e todos curtem tudo. Penso que se morri então estou feliz. Não quero nunca mais deixar esse festival impressionante. A música nos alimenta e nos empolga. Consigo ver que na bateria está Eric Carr e do outro lado John Bonham toca com Bom Scott.
Vejo John Lord e Rick Wright regulando seus teclados e pianos junto Tommy Bolin e ninguém menos que Ray Gillen e Randy Rhoads. Deep Purple, Pink Floyd, e Ozzy Osbourne. Um pouco de cada banda dessa que se foi e que agora começa um som indescritível e hipnotizante!
Todos eles nos deixaram na Terra, mas continuam lá, nessa dimensão incrível, fazendo a alegria de milhões de pessoas. Mal posso acreditar onde estou. Fecho meus olhos e vejo a música de uma forma nunca antes vista… A magia espiritual é indescritível… Sinto a música em todo meu ser, como uma segunda pele, num conforto inexplicável.
E de repente sinto algo batendo em mim…
A música continua, mas tem alguém gritando “papai, papai”…

Acordo no meu santuário com a minha filha Mariana de quatro anos batendo no meu peito e pedindo para eu ir com ela pegar uns brinquedos no armário.
O sonho acabou. Realmente eu não tinha morrido…
Não vou dizer que é uma pena, adoro viver. Mas olha, se depois da morte for esse o lugar para onde irei, então está tudo bem.
Me levantei da cadeira e fui pegar os brinquedos.
As impressões do sonho ficaram de forma intensa em meu ser.
Tanto que depois disso selecionei músicas de cada artista daquele sonho (?) e passei uma noite linda escutando os mortos em meu quarto, à meia luz…

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