Arcpelago: Simbiose

Quando David Caravelle resolveu dar vida ao Caravela Escarlate, eis que o destino quis que ele conhecesse o talentoso tecladista Ronaldo Rodrigues, que naquele exato momento iniciava um projeto progressivo com o baterista e amigo Rafael Mello. Da mesma forma David iniciava seus trabalhos com outro baterista, Tadeu Filho. Então unidos para formar uma banda, Rodrigues e Caravelle se viram frente a um impasse. Como trabalhar com dois bateristas de igual importância? A solução veio na forma de duas bandas. E foi assim que, para nosso deleite e apreciação, surgiram a Caravela Escarlate e o Arcpelago, tendo em comum o espetacular trabalho do tecladista Ronaldo Rodrigues.
Com Rafael Mello ele montou o Arcpelago, trazendo à luz em pleno século XXI um progressivo de alto nível, inteligente e viciante. E com David Caravellle e Tadeu Filho, seguiu no convés da Caravela Escarlate, outra banda de categoria indiscutível, com influências de mpb e rock progressivo de todos os tempos, alçando altos voos por todo o Universo.
Hoje ambas as bandas contam com outros bateristas, mas foi por causa desse início que o que era para ser apenas uma banda se transformou em duas.
Os dois trabalhos, diferentes entre si, possuem traços de tudo que os músicos já ouviram na vida e diferenciam-se por suas propostas, apesar de ambos serem progressivos. No Arcpelogo é possível notar uma influência mais forte das bandas antigas. Medalhões como Nektar, Eloy, Genesis, Newschwanstein, King Crimson, Yes, entre outros são claramente fortes e perceptíveis no fantástico som, mas sem deixar de lado a criatividade e grande personalidade dos músicos. Não se trata de cópias das bandas europeias, mas sim de influências. Os músicos do Arcpelago sabem como se utilizar disso são tão incríveis quanto as bandas das quais bebem na fonte. E isso também acontece na Caravela Escarlate, da qual já falei aqui no blog.
A versatilidade de tecladista (que também já foi do mítico Módulo 1000), aliada a um grande sentimento, criatividade e talento, faz com que seu trabalho, onde quer que ele vá, ganhe forma e brilho. O Arcpelago em seu primeiro registro em CD, conta com Eduardo Marcolino (guitarras e violão), Jorge Carvalho(baixo), Renato Navega(bateria) e Ronaldo Rodrigues (vocal e teclados) e nos traz não menos que a nata de um Rock Progressivo de qualidade, como faziam as antigas bandas da Europa, principalmente da Alemanha e Itália, um brinde ao bom gosto e a sensibilidade. É impossível não se apaixonar por instrumentações tão bem elaboradas. Esse trabalho explora a habilidade de cada músico e nos permite apreciar separadamente e como um todo composições que vão de talento a genialidade, originais no que se propõe, criando um resultado de rara beleza.

Simbiose (nome do álbum) define o conjunto da obra, pois esses músicos se entendem e se completam muito bem. O CD encanta de imediato, já nos primeiros segundos, levando a uma viagem maravilhosa. Somos repentinamente transportados para uma dimensão onde a poesia se traduz em música, conversando com nossas almas, revelando cenários fantásticos inesperados, pois a música consegue sim ganhar forma em nossas mentes, característica marcante que faz do Rock Progressivo ser o que é.

Sopro Vital faz juz ao título. Dá início de forma magistral à caminhada que se seguirá. A introdução muito breve leva instantaneamente ao Mug e logo ganha forma com o baixo e a magnífica bateria, criando um clima de aventura, poderoso e instigante. Aqui lembramos das trilhas e suítes dos primeiros discos do Nektar, entre outras coisas e somos conduzidos a uma guitarra perfeitamente colocada, que invade a música e lhe dá ainda mais fôlego, nos levando a um caminho sem volta em nossa imaginação, pois não tem como parar de ouvir. A certa altura o baixo de Jorge Carvalho marca um clima onde lembramos King Crimson em seus melhores dias. E nesta atmosfera de júbilo, Ronaldo Rodrigues declama a letra poética que descreve o início desta criação, um verdadeiro sopro de vida e beleza! De fato, nosso coração é o alvo principal de tão fantástica composição.

Distância de um Dia e Outro dá um tom mais escuro, nos remetendo às noites na cidade, com seu baixo misterioso, forte e até mesmo de certa forma maldoso, dando o tom perfeito para nossos mestres entrarem no som, percorrendo ruas escuras e becos perdidos, pelas sombras da natureza humana. Ouvindo o teclado de Ronaldo Rodrigues, sentimos que a noite todos os gatos são pardos e que tudo pode acontecer. Demonstra que a distância de um dia e outro pode ser um tempo ou lugar, onde nem sempre o que se vê é o que parece. Essa canção, de início singelo, com o teclado parecendo gotas noturnas de orvalho, possui ainda um tom de jazz, que também nos remete às trilhas sonoras de filmes policiais antigos. Parece que a qualquer momento vamos ouvir uma suíte de saxofone, algo de noir, de investigativo. Nessa segunda faixa só podemos concluir que o Arcpelago é um lugar onde se pode sonhar, pois ele transcende o tempo e a realidade.
A certa altura surge um duelo de bateria e baixo de cair o queixo. Levando a uma música poderosa, onde há espaço para toda a capacidade dos músicos. A guitarra aqui faz seu papel enlouquecedor, com incursões verdadeiramente muito fortes e quando a música acalma, a viagem ganha outro tom e de repente volta ao cenário noir do começo, levando o ouvinte ao limite de seu imaginativo.

Ebulição dos Tempos já começa com tudo, com guitarras e mugs para todo lado, caindo num baixo marcante e melodia vocal poderosa que cria uma canção forte, talvez o ponto mais rock do CD, sem deixar o progressivo debandar. Nas letras mais poesia, sugerindo que existência é uma pura relatividade. Grande sacada para uma canção tão forte. De fato, como descrito na resenha magistral de Joel Macedo (presente no encarte) “Jorge Carvalho conversa harmoniosamente com a guitarra, o teclado e a bateria chamando a Ebulição dos Tempos“.
Cidade Solar, mais uma música capitaneada pelo baixo bem marcado, funciona como introdução maravilhosa para o que vem a seguir, pois a canção explora apenas dois minutos e trinta e dois segundos, onde acontece tanta coisa que a gente se sente mesmo próximo do Sol, num local onde o tempo e o espaço não mais importam, pois a essa altura o ouvinte atento já perdeu a noção de sua realidade, restando apenas o sonho e estadia no paradisíaco Arcpelogo.

Universos Paralelos… Uma bela introdução de piano e de alta sensibilidade, trás todo o resto da banda a um ponto em que fica evidente a imaginação e criatividade que nos remete a outras realidades, distintas e pessoais de cada um. A música aqui liberta a percepção espiritual e nos leva a uma parte mais profunda de um local que não existe aos olhos comuns, mas sim aos olhos da alma. Outra peça de dois minutos e trinta e dois segundos, assim como a anterior, mas com grande capacidade de introspecção, uma verdadeira terapia sonora, com guitarras bem colocadas que no fim nos deixa com uma profunda sensação de bem-estar, servindo de introdução para a próxima obra.

Dentro de Si… Uma suíte que começa singela com um alívio e um arranjo de guitarra e teclado, logo seguindo por um violão indispensável, permeado pelo clima dos teclados e o baixo marcante. Aqui duelando lindamente com notas de guitarra, limpas e belas, Eduardo Marcolino e toda sua perícia se supera, remetendo inevitavelmente a King Crimson, porém num tom um tanto mais espacial e impressiona. Muito bom ouvir o trabalho de bateria de Renato Navega, exibindo toda sua virtuosidade, precisão e poder. As letras sempre poéticas e até mesmo um tanto subjetivas, somam à parte final da simbiótica viagem, combinando lindamente com toda a composição, e porque não dizer com toda a ideia do álbum? Pelos quase dez minutos de duração, a canção revela de uma vez por todas o que o Arcpelago pode oferecer, insinuando nas entrelinhas que de onde veio tudo isso ainda virá muito mais, pois não há limites para uma banda que se supera a cada composição.
Tratar Simbiose como uma única música dividida em partes é algo inerente à ideia de cada um, pois a gente não consegue ouvir somente uma canção e sempre volta para ouvir o álbum todo, prazerosamente sentindo ao final de cada audição que poderia haver um disco dois…
Fantástico. Impecável em tudo, inclusive na arte gráfica, simples e suave. Não há defeitos a destacar aqui…
Sinceramente, talvez um único…
Deveria ser um disco duplo. Mais composições como essas só agregariam no conjunto da obra. Diferente de muita coisa por aí que vem as vezes em discos duplos, mas que a gente não consegue assimilar nem metade do primeiro disco…
Hoje o Arcpelago conta com outro guitarrista em seus shows, Diogo Aratanha que ao vivo realiza muito bem as performances de seu antecessor. E o melhor é que há composições novas, Apoiado em Ombros de Gigantes e Como soa a Verdade, que a banda vem executando em seus shows. Canções de impacto e genialidade igual aos trabalhos anteriores, que com certeza vão figurar ao lado de outras belas composições no vindouro novo álbum.
Até lá o negócio é curtir o Simbiose e prestigiar as apresentações deles, onde quer que estejam.
Me sinto privilegiado em conhecer esse trabalho de tão grande sensibilidade e qualidade. Já havia me surpreendido com a Caravela Escarlate e o Arcpelago chegou para agregar mais uma obra inestimável à minha coleção.
E o show dos caras, tanto de uma banda quanto da outra, é sensacional, assim como eles. Pessoas de rara simpatia, humildade e carisma… Mas isso é assunto para outra matéria.
Por hora permita se conhecer esse trabalho ímpar.
Procure pelo Arcpelago no Facebook. Veja os vídeos no Youtube e tire suas próprias conclusões.
Só esteja preparado para a viagem…

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