Genesis Live no MIS – 23 de junho

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Existe aquilo que gostamos e aquilo que passamos a amar. Com o Genesis foi assim. A descoberta tardia de uma banda que havia se tornado uma lenda nos anos 70 fez minha vida virar de cabeça pra baixo, revolucionou meu mundo musical, me trouxe novos horizontes e direcionamentos quase impensáveis para alguém que havia crescido ouvindo Black Sabbath, Led Zeppelin, Iron Maiden, entre outros ícones também marcantes e essenciais naquilo que se propunham. Meu mundo metálico de repente era invadido pelo Rock Progressivo, capitaneado principalmente pela sonoridade atemporal do Genesis e todo seu contexto fantástico, trazido principalmente pelas fases iniciais (sim, pois os álbuns do Phil Collins também me conquistaram com o passar do tempo) onde o Peter Gabriel reinava com toda sua loucura e teatralidades únicas.

A obscuridade genial de trabalhos como Nursery Cryme e Trespass, isso só para destacar alguns, era algo que de alguma forma conversava com a minha vida no início dos anos 90, onde a solidão reinava constante. Naquela época a música foi minha melhor companhia e fonte de esperança. Então o Genesis se tornou importante e difícil demais de estar presente, pois os discos melhores eram caros e difíceis de serem encontrados por aqui.

Passei um bom tempo procurando pela cidade inteira, vasculhando os sebos, trocando livros por discos, que muitas vezes vinham em péssimas condições. Mas era minha única alternativa, além do rádio, para conseguir conhecer um pouco desse mundo maravilhoso do Rock Progressivo.

No final daquela década, com advento do CD, num mundo ainda bebê em termos de internet, consegui obter toda discografia da banda, vídeos e tudo que sempre quis. Foi aí que surgiu um personagem vital para essa paixão, que depois se estendeu para outras bandas tão incríveis quanto o Genesis. Roger Troyjo, um músico mágico, transmorfo, capaz de realizar nossos mais profundos sonhos musicais. Ele nos trouxe o Yessongs, que nada tinha a ver com a trupe donde estavam Peter Gabriel e Phil Colllins, mas que logo levou a outro trabalho, o Genesis Live. E foi aí que o sonho se realizou. Ver um projeto resgatar todo o trabalho já há muito perdido nas linhas do tempo foi algo único e especial. Sempre cercado de músicos de alta qualidade, o cara simplesmente reviveu as viagens e todo seu fantástico contexto.

Sim, também no século XXI o sonho continua acontecendo e centenas de pessoas já puderam conferir essa banda fantástica, que recria nos mínimos detalhes toda magia e dimensão da banda original de forma impecável. Foram inúmeras apresentações em diversos lugares nos últimos 20 anos. Sempre impecáveis e sempre a nos fazer viajar como se estivéssemos nos tempos dourados em que Steve Hackett e Peter Gabriel davam os tons das cores produzidas pelas sonoridades até mesmo sobrenaturais entoadas pela banda.

Estar num show do Genesis Live é um privilégio, algo realizado para verdadeiros fãs, gente tocada pela magia espetacular de uma coisa muito além da compreensão do que se diz música normal, pois o trabalho é muito mais do que simples, mesmo nas canções da fase do Collins, pois a dedicação, o amor e o cuidado dos músicos é algo que se sobressai e torna o show profundo e até mesmo introspectivo por diversos momentos. A diversidade musical entre todas as fases do Genesis é um complemento que demonstram ainda mais o comprometimento da banda em nos trazer algo verdadeiro, muito além de um cover, mas algo cada vez mais como o original, com o toque imprescindível da personalidade de cada músico.

E graças a todo esse histórico cheio de momentos e situações que acompanham toda a vida de um fã por tanto tempo, veio esse show no recente dia 23 no MIS(Museu da Imagem e do Som em São Paulo), onde um auditório de ótima qualidade recebeu um dos melhores shows dessa formação até o momento. Não menosprezando situações inesquecíveis, como os tempos do Teatro Crowne Plaza, onde vi as mais intimistas e cuidadosas apresentações, ou mesmo outros lugares, onde por diversas vezes estive presente.

Ano passado no Café Piu Piu vimos um show incrível, onde a bela Aline Polisello fez sua brilhante estreia na flauta, deixando o público de joelhos aos seus encantos, aliados a magia da banda. Depois conferimos mais um pouco da magia no Cine Jóia, durante a segunda edição do Open Mind Festival, numa apresentação que já nos mostrava o que estaria por vir, com efeitos impressionantes, isso sem falar nas sonoridades, ainda melhores do que antes.

Desta vez o show satisfez por completo as expectativas de todos os que estiveram nas outras oportunidades e trouxe à luz canções que todo mundo queria ver, com tudo que tinham direito e claro, com a fada Aline ainda melhor do antes, agora quase como um membro oficial da banda, nos brindando com sua beleza e talento únicos, cada vez que aparecia no palco.

Roger Troyjo(vocal), Vito Montanaro Neto(bateria), Vitor Giovannitti(guitarra), Rafael Senatore(baixo, guitarra), Francisco Weiss(teclados) e Aline Polisello(flauta) nos trouxeram a melhor formação do Genesis Live que poderíamos supor, recriando com perfeição e paixão absoluta, clássicos que fazem parte de nossas vidas…

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“Sejam bem vindas criaturas de todas as origens. Antes de mergulharmos nas águas contínuas do tempo, algumas palavras para situa los no mesmo. Quando crianças, ouvimos longínquas e silenciosas melodias, atravessando a bruma da noite… Depois, vagamos à procura da luz, que encontramos nas sombras, todas as cores e vozes… Se trilhamos a rota da ilusão, partimos para conquistar castelos, mas destruímos os sonhos e nos apoderamos de escombros… O que dirá a consciência, aquele temível espectro no caminho? Por mais sereno que seja nosso navio, no oceano da existência sempre haverá alvoroço… E nós que pensamos ter sobrevivido ao naufrágio, por nos agarrarmos às portas do templo, invadimos o tempo buscando refúgio, e nós que pensamos ter sobrevivido no oceano da existência descobrimos que o templo… é o tempo. Nesta noite encenaremos neste tempo e neste templo, Genesis Live…”

E foi com este discurso, à sombra do alienígena projetada ao fundo do palco, que o espetáculo começou com Watcher of the Skies, como não poderia deixar de ser, interpretada com toda sua teatralidade, fantasia e sentimento, característica marcante na dramaticidade tão necessária para compor o clima fatal de uma música espetacular. Olhos imensos se fizeram presentes nas projeções do palco, como que a observar nossas mentes e nossos corações, impondo um ar cinematográfico que se repetiu por todo o espetáculo em todas as projeções, muito bem montadas e totalmente contextualizadas á cada canção.

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Dancing with the Moonlit Knight se seguiu impecável como nunca antes, com a capa do Selling England by the Pound ganhando forma e movimento nas projeções, alternando com imagens do Peter Gabriel. Roger Troyjo caracterizado de “Britânia, o cavaleiro da verdade, aquele que traz as boas novas de sua terra, antes mesmo do jornal matutino,”  adentrou ao palco (deixando claro que em seu caso, sem “fake news”) e nos trouxe a luz a bela canção de 1973 em todo seu esplendor até a finalização viajante com a flauta mágica de Aline Polisello, criando o clima necessário, que já emendou I know What I Like, onde a flauta foi novamente o destaque, para deleite do público exigente e de bom gosto.

That’s all veio para quebrar um pouco da jornada, nos trazendo um momento agradável e de conforto musical aconchegante, só para mostrar que Gabriel também se torna Collins, nos poderes transmórficos do camaleão Troyjo, que colocava a todo instante sua banda numa posição muito confortável no palco. Todos muito bem entrosados e garantindo a cada minuto, chance de sucesso absoluto.

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Então veio Carpet Crawlers, primeiro momento do The Lamb neste show com as projeções originais que o próprio Genesis usava na época, criando a introspecção necessária para a volta no tempo e no espaço. Lembrei me das apresentações conceituais que a banda The Musical Box fez no Brasil há alguns anos, onde reproduziram todo o The Lamb Lies Down on Broadway exatamente como o a banda original fazia e pela primeira vez fiquei pensando que algo assim poderia ser bem possível para o Genesis Live. Foi um momento onde a plateia cantou o refrão junto com o Roger. Todo mundo ama essa música, independente das sua letras.

Então a encarnação de Rael deixou o palco e nosso Roger retomou seu Collins com Mama e todo seu magnetismo hipnótico. Impressionante como essa canção tem o dom de prender a atenção do povo. E a medida em que ela vai alcançando seu clímax, fica impossível não se contagiar com tanta dramaticidade, principalmente se entendermos sobre o que ela se trata.

Veio então o momento flashback com Follow you follow me, sempre interpretada com beleza única, seguida de perto por Los Endos, onde o Roger deixou o resto da banda brilhar em suas instrumentações fantásticas, provando que o Genesis Live é um aglomerado de músicos espetaculares, como não poderia deixar de ser. Vale destacar aqui, entre tantos talentos essenciais, a bateria poderosa e precisa de Vito Montanaro Neto, como esse cara toca! Ele é o nosso Chester-Collins sem dúvida nenhuma.

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Foi aí que veio a novidade. Mais um momento dedicado ao contexto obscuro do The Lamb, desta vez com algo nunca tentado. The Lamia então passou a ser executada com toda sua teatralidade e efeitos visuais. Não somente os slides originais, mas também um enorme tubo de pano, pintado de acordo com o contexto da música, encenando o envolvimento das cobras com o personagem Rael.

Roger cantou dentro do tubo, que vez por outra girava, sendo bombardeado pelas luzes do ambiente, exatamente como o Genesis fazia. Um momento espetacular e que só veio a reafirmar que a interpretação do álbum inteiro e toda sua produção pode mesmo estar a caminho. Foi um dos momentos mais impressionantes e cuidadosos do show que encheu os olhos de todos e nos mostrou que os caras são capazes do que quiserem se lhes forem oferecidas condições ideais. Mais um momento que me fez ter certeza de que há planos futuros para execução do álbum na íntegra, principalmente pelo fato do Roger ter dado a deixa, mencionando durante a desmontagem do tubo de pano que será muito mais difícil quando eles executarem The Colony of Sleepermen, outra canção do The Lamb, onde Gabriel usava uma fantasia de látex gigantesca.

Pra quem não sabe, vale destacar que o The Lamb Lies Down On Broadway foi onde, apesar de tudo que a banda havia feito antes, o Genesis alcançou sua máxima em nos proporcionar as maiores viagens do Rock Progressivo. Se tratou de um disco duplo, conceitual, baseado nos sonhos de Gabriel. Dentro do encarte vinha a história toda do álbum e as letras das canções contextualizando os momentos da narrativa. Foi algo tão histórico quanto o Pink Floyd The Wall, ou Tommy do The Who. Detalhe que depois desse disco Gabriel deixou o Genesis. Parece que foi o máximo de sua criatividade alucinante e a banda queria seguir por rumos mais simples, como de fato foi.

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Mas voltando ao espetáculo em questão, a seguir veio Firth of Fifth, executada com toda sua história mítica e mais uma vez a flauta da Aline, deixando tudo ainda mais belo. Não me canso de mencionar que esta canção tem um dos solos de guitarra mais belos da história do Rock e acabam ficando super valorizados nas mãos do excelente Vitor Giovannitti, nosso Hackett de plantão.

The Musical Box é obrigatória nas apresentações do Genesis Live e desta vez foi interpretada com maestria maior ainda, com os arranjos impecáveis dos teclados de Francisco Weiss e o entrosamento impressionante, quase Heavy Metal de Vitor Giovannitti e Rafael Senatore, impecáveis em suas encarnações genesianas, nos trazendo não menos que o melhor. Aline Polisello novamente nos brindando com sua flauta, (desta vez obscura), a contextualizar o clima além túmulo da perigosa caixa de música…

Claro que não poderia faltar a interpretação do fantasma do Velho Rei Cole, mais uma vez a assombrar os corações desavisados… Simplesmente sensacional e atemporal, me trazendo lembranças dos tempos em que caçava essa canção nas madrugadas da antiga 97FM, onde ouvi o Genesis pela primeira vez. Pasmem, mas no início dos anos 90 essa emissora de rádio tocava várias canções da Era Gabriel. E essa foi uma das primeiras que ouvi e fui sequestrado ao universo sombrio do Progressivo. Só para constar, em 1992 vi essa canção pela primeira vez na TV Cultura, uma filmagem antiga de 1973 na Itália, vinculada num especial de Rock Progressivo promovido pela emissora. Pena que não tive como registrar aquilo naquele tempo. Mas ficou gravada na minha memória e quem poderia dizer que no futuro eu teria não só aquela canção, mas o show todo em vídeo e posteriormente em dvd…

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E quando nossos corações já não retornavam mais ao nosso tempo, Supper’s Ready deu o ar de sua graça e todos os seus vinte e três minutos. Essa versão durou um pouco mais e foi executada com a maior maestria que já vi na vida. Impecável em todos os seus detalhes, com projeções adequadas a cada passagem e a teatralidade fiel ao seu original, aliada a toda capacidade da banda, com todos focados em nos trazer cada nota, cada sentimento, cada vibração. Roger e sua fantasia de flor simplesmente nos fizeram esquecer de que não era o Peter Gabriel quem estava ali. Guitarras entrosadas, bateria marcante, teclados e flauta extremamente corretos. Tudo lindo, tudo espetacular como não poderia deixar de ser, nos trazendo o maravilhoso caos da obra máxima do Foxtrot em toda sua majestade, nos levando de um simples reencontro ao fim e recomeço do mundo, numa espetacular simbologia, crítica e inteligente, uma verdadeira jornada pelos acertos e defeitos da humanidade, como insinua a narrativa poética da canção.

No final a entrada de Roger e sua fantasia de Magog (personagem bíblico do Antigo Testamento), anunciando o fim de tudo, para depois recomeçar, numa interpretação inesquecível. Finalizando a última sessão com um enorme bastão de luz azul (inevitavelmente lembrando um sabre de luz de Star Wars para algumas pessoas…), concentrando toda dramaticidade da canção e de uma apresentação irrepreensível, sem defeitos, perfeita e bela como nunca, algo que emocionou todos os presentes.

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Como não se desdobrar em elogios para uma banda com tanta gente competente e dedicada? Não há como destacar nenhum aspecto negativo, talvez o fato de que mais uma hora de duração seria  muito bem vinda, com Cinema Show,  The Return of the Giant Hog Weed, The Fountains of Salmics, The Knife e até mesmo Home by the Sea, Hold on My Heart, Domino e tantas outras que amamos…. Mas aí seria pedir aos músicos um esforço sobre humano. Então saímos satisfeitos com tudo que vimos, esperançosos por novas apresentações, ávidos por cumprimentar os músicos do lado de fora.

Consegui falar com meu querido amigo Vito Montanaro, mas não com os outros. Também havia tantas figuras ilustres pelo Museu, como o Cassiano Music Man acompanhado de sua esposa Carina Assencio, sua sogra e seu pai. Ele me revelou ter conhecido o Foxtrot por seu pai e isso também ter sido uma de suas maiores influências musicais (Cassino é baterista fenomenal do Rick Wakeman Project, Stealy Dam Cover, Pink Floyd Dream e Coldplayers. Ele toca também com sua adorável esposa num projeto de Jazz maravilhoso, também com Sandro Premmero e Vinícius Gomes).

Encontrei meus queridos amigos Roberto Oka, Clovis Guimarães, Dario Figueiredo, Neusa Franquini, Katia Yamashita, Nilda FreitasKaren Lys, André Bortolo, Ricardo lima e Eduardo Souza. Tiramos fotos juntos e compartilhamos nosso deleite em participar de algo tão sublime. Sempre um prazer encontrar essa galera maravilhosa e de bom gosto!

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Eu e a minha esposa Katia Clarindo voltamos pra casa deslumbrados e um pouco frustrados por não ter conseguido falar com todo mundo. Estava lá também o guitarrista Alexandre Chamy, nosso amigo querido e a Camila Polisello, prima da Aline, mas não conseguimos conversar com eles infelizmente. Não faltarão oportunidades para isso no futuro, tenho certeza.

Se você ainda não conhece essa galera toda não sabe o que está perdendo. Fique de olho no Roadrock e ouse conhecer os trabalhos desses e outros músicos. Você vai se surpreender com tanta qualidade acima da média.

“Walking across the sitting room, I turn the television off… Sitting beside you I look into your eyes…”

 Veja o show na íntegra no canal do Roadrock no YouTube no link abaixo:

 

Marcos Falcão

Um comentário em “Genesis Live no MIS – 23 de junho

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  1. Muito bom Falcão mais um evento muito bem descrito por vc na íntegra e com vários detalhes que ficam agora eternizados para as nossas memórias … Imagine quando estivermos bem velhinho e ao reler essas narrativas … Parabéns e que vc só evolua nessa sua sensibilidade e habilidade … Obrigado mais uma vez !!!

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