Candlemass – Pelos tortuosos caminhos do Doom

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Mais um texto para a sessão Falando sobre… onde pretendo fazer uma retomada dos trabalhos das bandas que considero importantes para o Rock, a fim de atingir as novas gerações, passando nos textos como foi viver isso para mim, sem me preocupar muito com todos os detalhes, apenas simplesmente escrevendo sobre o que considero relevante e como foi isso para mim. Aí vai, espero que gostem…

 

Uma tarde de sábado em 1998 fui convidado para um churrasco. A coisa toda aconteceu na casa de um amigo antigo, o Carlão, o qual havia se casado e já tinha até uma filha, de nome Melissa, declaradamente uma homenagem ao Mercyful Fate, que ao lado do King Diamond, era uma de suas principais paixões.

Eu e meu amigo Cláudio Gomes tivemos grande dificuldade em encontrar sua morada, visto que ficava num lugar ermo, no extremo sul da cidade de São Paulo. A promessa era de um dia comendo carne, jogando conversa fora e ouvindo o mestre King, em todas as suas encarnações, pois sendo a casa de quem era, não poderia jamais ser diferente. E a exceção da carne, que acabou sendo suplantada pelos melhores pães de alho que comi até hoje, foi exatamente isso que aconteceu, tornando aquele churrasco, algo inesquecível.

Claro que rolaram diversos sons, desde Black Sabbath a Iron Maiden, e como a casa dele era a única residência habitada em alguns quilômetros de planícies e árvores, a coisa toda rolava solta, em alto e bom som, fazendo a alegria dos Headbangers presentes.

E nesse dia fui apresentado ao Candlemass.

Nightfall foi meu primeiro contato, que entrou para minha coleção de clássicos, sendo até hoje algo muito precioso para minha cultura metálica.

E por esse motivo resolvi escrever sobre minhas impressões da sabática trajetória dessa excelente banda, que mesmo com todas as suas mudanças de formação, seguiu carregando a bandeira do Epic Doom Metal, influenciando muita gente e mantendo a chama do Metal sempre acesa!

Leif Edling, um baixista sueco, formou o Candlemass na década de 80 em Estocolmo, na Suécia. Eles praticamente inventaram o gênero Doom Metal, visivelmente influenciados pelo Black Sabbath nos anos 70. Em 1986 lançaram seu primeiro registro, o álbum Epicus Doomicus Metallicus, considerado uma obra-prima do gênero, com o vocalista Johann Löngqvist, dono de uma voz poderosa e macabra imprimindo o estilo que predominaria na banda pelas décadas que viriam, e que acabou sendo chamado de Epic Doom Metal. O uso de um vocal poderoso beirando a ópera, que lembrasse sutilmente as vocalizações mais fortes de David Byron do Uriah Heep, não era algo comum nas bandas da época. Isso mais os riffs arrastados ao estilo Tony Iommi, fizeram do primeiro disco uma lenda, apesar de não ter vendido tanto quanto se esperava. Destaques como Solitude, Demons Gate e Under the Oak acabaram tornando-se clássicos que são executados sempre em todos os shows, durante todo seu período de atividade, independente das mudanças de formação. Esse disco foi uma bela porta de entrada ao sombrio mundo do Doom Metal, e consequentemente aos lados mais trevosos de todos os corações dos Headbangers.

Mas foi com o seguinte, Nightfall de 1987 que a banda mostrou para que veio, sendo este considerado pelos fãs como obra-prima do estilo, estreia do vocalista Messiah Marcolin, extremamente emblemático e  performático, com sua caricata Doom Dance, ostentando um corpo imenso vestindo uma espécie de batina com cabelos armados e gigantes e uma voz mais poderosa e operística do que a do anterior. Também neste álbum temos a melhor formação com  Lars Johansson nas guitarras e Jan Lindh na bateria. Esse foi meu primeiro contato com a banda e nem preciso dizer que é meu preferido até hoje. Inclusive nessa época foi produzido o clipe da música Bewitched, algo extraordinário para uma banda até então iniciante.

Com exceção da horrível Marcha Fúnebre (eu não gosto), todas as faixas deste álbum são excelentes, tornando um destaque realmente algo muito difícil. O  primeiro registro que tive desse trabalho foi uma fita cassete que gravei do disco do Carlão. Logo em seguida comecei a comprar os CDs, todos os europeus caríssimos para a época. Em 2001 foram lançados quase todos no Brasil em edições duplas cheias de bônus e na metade do preço dos Importados.

Ancient Dreams foi o passo seguinte e já trouxe composições mais pontuais inclusive um meddley de canções do Black Sabbath, como uma homenagem às suas mais evidentes influências. Mirror Mirror se tornou uma faixa obrigatória em todos os shows e Epistle 81 é uma canção originalmente escrita pelo poeta e músico Sueco Carl Michael Bellman, falecido em 1795.

Depois de toda treva dos antigos sonhos e seu lado gótico, no que diz respeito as letras e referências, Tales of Creation encerrou para eles a década de 80 em grande estilo, repetindo o sucesso de Nightfall, com uma excelente produção. São dele faixas incríveis como Dark Reflections e uma nova versão para Under the Oak, com riffs mais dinâmicos, numa pegada que poderia muito bem ser feita pelo Mercyful Fate. Com este álbum os seguidores de Messiah Marcolin se realizaram e o Candlemass firmou de vez  seu pezinho dentro do cenário do Heavy Metal mundial, tanto que Live foi o passo seguinte, abrindo a década de 90 com chave de ouro, apesar daqueles tempos não terem sido tão felizes para banda como foi a década anterior. Logo depois desse lançamento o ícone Messiah Marcolin, deixou a banda, o que fez uma baita diferença pois em seu lugar entrou Thomas Vikstrom, que dividiu opiniões e fãs.

Chapter VI de 1992 (em plena era grunge), trouxe um Candlemass mais fraco, com um bom vocal, mas que não tinha nem o Carisma nem o potencial de seu anterior. As composições soavam mais como um rabisco das influências do Black Sabbath antigo, tornando este disco algo peculiar e diferente de tudo que a banda havia feito e do que fariam adiante, apesar dos riffs marcantes, características de todos os discos até então. Eu gosto de chamá-lo de uma espécie de Never Say Die do Candlemass, pois é o seu “feeling”, mas com muito menos fôlego e produção. De forma alguma é um disco ruim, só diferente e despretensioso, hoje uma raridade. Quem tem não se desfaz, aliás por falar em se desfazer, foi exatamente o que aconteceu com a banda após esse álbum. De fato, ele não segurou a onda e o Candlemass chegou ao fim. Lief Edling tinha um outro projeto, o Abstrakt Álgebra, que acabou não dando certo também. Devia mesmo ser muito difícil sobreviver sem algo inovador numa época onde o Grunge ameaçava existência do Metal. O jeito foi trazer de volta o Candlemass em novo formato e som renovado.

Dactylis Glomerata tinha a missão de soar como um novo Epicus Doomicus Metallicus, talvez ao menos na ideia de Lief. Só que não funcionou desse jeito. Esse disco não pode ser comparado nem de longe a qualquer trabalho antigo da banda, principalmente pela modernidade presente em todas as composições, muitas delas reaproveitadas de seu outro projeto. No entanto o clima soturno e os riffs pesados deram algum valor ao álbum, que acabou sendo aceito. Os músicos que gravaram este álbum eram do Abstrakt Álgebra, e o escolhido para os vocais foi Bjorn Flodkvist, já que Mats Leven não pôde ser encontrado. Nas guitarras ficou Mike Amott do Archer Enemy. Ou seja, tínhamos na verdade uma outra banda para este disco. Tudo isso foi muito difícil eles tiveram inúmeros obstáculos, inclusive financeiros, que dificultaram imensamente o lançamento desse trabalho em 1998, o que não fez lá grande diferença, e apesar de todas as tentativas de inovação, o disco fracassou comercialmente mesmo tendo agradado muita gente, apesar de não ser o Candlemass do passado.

From The 13th Sun, foi o passo seguinte, alguns anos depois do peculiar Dactylus Glomerata. Esse disco veio na clara intenção de homenagear o Black Sabbath, pois até o efeito de chuva pode ser percebido, porém sem o sino. Aqui temos a banda voltada a um som mais soturno, um disco simples, pesado e direto, cheio de climas macabros e que dá o seu recado em quase 50 minutos de trevas, mas jamais chega a ter o poder dos primeiros álbuns. Também, a banda tinha pouco dinheiro para gravar e tudo foi feito no módulo básico. Ouve outro guitarrista nesse álbum, Mats Stahl, vindo do Gone, uma banda alternativa desconhecida na Suécia. Eu particularmente gostei desse disco. Afinal as influências do Sabbath são sempre um atrativo interessante, principalmente para mim, mas a verdade é que esse trabalho não alcançou muitas diferenças em relação ao anterior, mesmo apelando para o peso e características dos primeiros anos do Black Sabbath.

Porém a história não acabou por aí. Em 2002 o Candlemass se reúne com seus membros originais e faz algumas apresentações ao vivo, claramente seguindo os passos de Ozzy Osbourne e sua banda original, que já vinha experimentando isso desde 1998. Dessas experiências entrega o álbum duplo do Doomed for Live – Reunion 2002, e nessa pegada vieram posteriormente as remasterizações dos primeiros quatro álbuns e um DVD, Documents of Doom. Pena que depois de tudo isso a banda se dissolveria novamente e somente em 2004 viria uma nova reunião e um novo registro de estudo, intitulado apenas de Candlemass, lançado em 2005 que lhe rendeu um prêmio Grammy na Suécia.

Eu tive a dádiva de estar em um show desta turnê que passou por São Paulo, acontecendo na antiga Led Slay. Espetacular. Tudo como nos anos 80, com Cruzes pelo Palco, canções de todos os clássicos, uma verdadeira volta no tempo. A performance de Messiah Marcolin Foi algo realmente impressionante, realizou o sonho de todos os fãs que lá estavam com seu vocal poderoso e sua Doom Dance, quase como antigamente, exceto por uns poucos quilos a menos…

Foi uma oportunidade única, pois nos anos seguintes Messiah deixaria a banda, sendo substituído por Robert Lowe, ex Solitude Aeturns, e a banda lançaria o excelente King of the Grey Islands em 2007. Ainda neste mesmo ano uma celebração de 20 anos foi realizada, onde participaram antigos vocalistas como cantor do primeiro álbum, Johan Löngqvist. Tudo foi gravado e lançado no DVD 20 Years Anniversary Party, com certeza um dos momentos para ficar gravado na história.

Foi lançado também um EP, Lúcifer Rising, que contribuiu com uma nova versão para Demons Gate e várias canções do show gravado ao vivo em Atenas já com o vocalista novo, que diga-se de passagem, não agradava muito ao vivo.

E em 2009 veio à luz (ou as trevas), Death Magic Doom, que foi muito bem aceito, trazendo o Candlemass aos seus melhores dias, mesmo com potencial vocal menor. Parecia que a banda se consolidava com essa formação e finalmente entrava no eixo, justificando o seu passado glorioso.

Essa turnê deixou um belo registro ao vivo, Ashes to Ashes, um CD/DVD, com vídeos do Sueden Rock Festival e do novo show em Atenas, ambos em 2009. No Sleep ‘till Athens também foi lançado em vinil duplo colorido, contendo um azul e um branco, numa edição muito bonita e bem produzida.

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Psalms for The Dead em 2012 trouxe um pouco mais das inspirações do anterior, seguindo pela mesma trilha, mas com uma produção pouco mais moderna, sendo seu último registro de estúdio. Depois disso Robert Lowe saiu e volta Mats Leven, para mim uma péssima escolha.

Um EP Death Thy Lovers foi lançado em 2016 onde temos a estreia desse vocalista no estúdio, mas nada de disco novo. As quatro composições apresentadas no EP são músicas que trazem todas as características do bom e velho Candlemass, exceto pelo vocalista que se mostra realmente o mais fraco de todos na história da banda na minha opinião.

Recentemente neste ano de 2018, nossos amigos do cemitério lançam mais uma EP, House of Doom. Nesse pequeno registro, em meio a momentos menos inspirados, temos um bom retorno aos clássicos riffs, assim como no anterior, o que nos dá uma esperança de que algo de bom virá, apesar de chegarmos a Furtuneteller, uma canção acústica e um fato inédito na história da banda. Não que seja ruim, mas não encaixa. O vocal não ficou legal, é tudo diferente. Não me agradou e deixou a preocupação de que se esta for a direção adotada, então teremos Epic Doom Metal finalmente morto e enterrado para sempre. Por outro lado, numa visão mais otimista, juntando os dois EPs, temos a impressão de que a banda está lançando um disco novo em pedaços, ou que talvez falte recursos para um novo lançamento completo. O fato é que até agora nada. o material apresentado nos dois registros não parece estar chamando muita atenção, talvez pelo desempenho do vocalista que realmente deixa a desejar, mesmo as canções tendo todas aquelas características que amamos no som do Candlemass.

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O futuro é uma incógnita, apesar do novo álbum estar prometido para o ano que vem e, em recentes notícias, Mats Leven ter sido substituido por Johann Löngqvist, o vocalista do primeiro álbum, que agora voltará a gravar com a banda. Vamos torcer para que esse  próximo registro siga na pegada dos melhores momentos dos últimos dois EPs pelo menos, ou tente uma volta ao estilo antigo que os consagrou através do tempo… Quem sabe agora com  uma mudança de vocalista tão significativa as coisas voltem a ser como antes, ou até melhores…

Eu os convido a conhecer esta história sabática que atravessou os anos conquistando o coração de várias gerações e sequestrando a alma de todos aqueles que amam o Heavy Metal no mundo todo. Vale muito a pena conhecer essa banda. Você pode conferir alguma coisa deles nos links abaixo e daí tirar suas próprias conclusões. Se resolver se aventurar por um passado colecionável, ainda é possível encontrar quase toda discografia da banda em CD (e com uma boa garimpada e muito dinheiro no bolso, em vinil), ou se preferir procure pelos arquivos digitais, com certeza não tem o charme das formas mais antigas, mas sai bem mais barato e prático. Eu prefiro manter a minha coleção como antigamente…

 

 

 

Curiosidade…

Procure por The Doomsday Kingdom, um projeto recente de Lief Edling. Espetacular e totalmente influenciado pelos melhores anos do Candlemass. Você encontra informação sobre o espetacular projeto no site da Roadie Metal (roadie.metal.com)  e em outros sítios da vasta internet. Vale a pena conferir!

 

Marcos Falcão.

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