Pantera, uma explosão de peso bem no meio da era grunge

Pois bem. Agora que já faz um tempinho e a poeira já baixou e todo mundo já parou de comentar sobre a morte de Vinnie Paul, posso concluir a intenção que tive de falar um pouco sobre o Pantera. Eu ia publicar esse texto um tempo atrás, mas não o fiz porque infelizmente essa ideia acabou coincidindo com o triste fato, então não quis que parecesse oportuno, pois não era essa a intenção. O que eu queria (e ainda quero), era evidenciar a importância dessa banda para o Heavy Metal e levar aos leitores um pouco de nostalgia e boas informações, além de mostrar aos novos aventureiros do Metal, uma excelente banda, que sem dúvida foi essencial para a sobrevivência do estilo, assim como o Metallica, Slayer, Iron Maiden, entre tantas outras. Medalhões que só fizeram história, muitos na ativa até hoje, entre altos e baixos, mas mantendo a máquina do Metal viva.

A “Metal Magic” do Pantera surgiu em Arlington, no Texas, por volta de 1981. Faz tempo. Mas não pense você que era algo semelhante ao que presenciamos no debut bombástico Cowboys from Hell. Não. De jeito nenhum. Talvez o mundo ainda não estivesse preparado para algo assim, talvez a história quisesse que o Metallica, no ano seguinte, fizesse a revolução com o excelente Kill’ em all, o petardo de estreia, que praticamente criou o Thrash Metal. Ou quem sabe, aquele momento era só para o Iron Maiden fazer história com seu pesado Killers, ainda com Paul Di’ anno nos vocais e estreiando o emblemático Adrian Smith nas guitarras. Talvez o “Deus do Metal” saiba os motivos. Nós, simples mortais, apenas aceitamos cada coisa em sua hora e lugar.

O fato foi que os irmãos Abbott (Vinnie Paul e Diamond Darrel), o baixista Rex Brown e o vocalista Terry Glaze (Phil Anselmo só entrou em 1987), fundaram o Pantera e muita história se construiu a partir daí. Nos anos que se seguiram, a banda se adaptou a onda de Hard Rock que se fez presente, principalmente nos EUA, e gravou quatro míticos álbuns: Metal Magic, Projects in the Jungle, I am the Night e Power Metal, respectivamente em 83, 84, 85 e 88.

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Não há qualquer semelhança desses trabalhos com a explosão que se deu em 1990, ocasião de lançamento do primeiro grande álbum com a química metálica entre o Thrash e Heavy Metal que o Pantera fez. Cowboys from Hell foi classificado por muitos críticos como  Power Metal, entre outros rótulos, como é de praxe acontecer com coisas novas, mas pra mim o que se iniciou ali foi o mais puro e cruel Metal que não se via desde muito tempo. Direto, pesado, sujo, cruel e muito bem feito. E vejam que naqueles tempos prevalecia a galera do Grunge. A onda era Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam, entres outras. Tristes gerações de corações quebrados e camisas de flanela.

A abertura que se deu com o Pantera serviu para alavancar o Metal e contribuiu inclusive nos anos seguintes, mantendo o estilo vivo. Mais interessante foi notar que a mesma turba que estava curtindo os sons do momento, acabou gostando também do Pantera, mesmo os caras não tendo nada a ver com a Era Grunge. E isso acabava levando o “grugeiro” a gostar também de outras coisas, como Metallica ( Black Álbum), Ozzy Osbourne (No more Tears) e até mesmo Iron Maiden (No Prayer for the Dying e Fear of the Dark) e o Megadeth com seu excelente Rust in Peace seguido pelo Countdown to Extintion, que acabou caindo nas graças do povo grunge. Foi uma reação em cadeia e, coincidência ou não, o Pantera era fã de tudo isso e muito mais.

Em 1992 chegou Vulgar Display of Power, ainda melhor que seu álbum de estreia, que definiria o estilo da banda de uma vez por todas. Um trabalho que colocou todos os fãs de joelhos à supremacia do talento e disposição dos artistas e virou referência de álbum de peso e qualidade indescritíveis. Clipes como Walk, Mouth for War e This Love fizeram dos caras uma das coisas mais frequentes da antiga MTV. E em Far Beyond Driven, álbum seguinte, que estreou no topo das paradas americana e australiana, toda a fúria ficou ainda mais pesada e violenta. Inclusive esse disco foi lançado com duas capas, uma delas sendo censurada. Na primeira versão em vinil, era uma furadeira entrando literalmente no rabo de alguém ( seria uma clara referência a Metal Up Your Ass, título que nuca saiu,  do Metallica?). Na segunda, a que saiu no CD, era um crânio sendo perfurado. Parecia não haver limites para o Pantera que se encravava cada vez mais na história do Metal. Passaram a surgir muitas bandas soando com eles então, muitas vezes valendo se de misturas que envolviam não só o Thrash Metal, mas estilos inusitados como o New Metal, entre outros. Bons exemplos foram o Machine Head e Deftones, que trouxeram modernidade, peso e qualidade a um cenário onde as coisas já marcavam seu espaço numa história que hoje sabemos ser inesquecível para o Heavy Metal.

Três ótimos registros, três bombas gradativamente uma mais potente que a outra, mas todas com alto poder. Exatamente como o Metallica fez nos 80. O fenômeno se repetiu nos 90, um pouco diferente, mas com o mesmo teor e importância, graças a esses furiosos Cowboys, que inclusive não pararam por aí. The Great Southern Trendkill em 1996 foi uma continuação interessante que manteve a qualidade de seu trabalho, mas infelizmente não foi tão bem aceito quanto o anterior. A fórmula pesada e selvagem já demonstrava que seus melhores dias já haviam passado. Em contrapartida, os fãs já se dividiam há algum tempo por causa das constantes propostas de álcool, drogas e destruição que a banda pregava. Isso já não funcionava mais. Boa parte do público não se interessava por essas coisas, só queira curtir um som, sem “matar” ninguém… Então eram frequentes alguns conflitos entre os fãs quando a banda parava os shows para ficar fazendo discursos destrutivos. Houve um único CD oficial ao vivo, o Official Live 101 Proof de 1997, que procurou captar toda a fúria da banda no palco.

Aqui no Brasil em 1995 um fã atirou um pedaço de vidro no palco, ferindo o braço de Phil Anselmo, numa ocasião em que estiveram no antigo Olympia, causando o final antecipado do espetáculo. Curiosamente o Pantera nunca mais esteve em terras brasileiras depois disso. Seu último registro de estúdio veio em 2000, com o álbum Reiventing the Steel, que tinha tudo para ser um excelente disco, menos a fúria, criatividade e peso de seus antecessores. Aqui o Pantera colocou o pé no freio e enjaulou a fera que já havia despedaçado muitas vítimas nos anos anteriores. Não fez feio, mas também não se sobressaiu, encerrando de uma forma morna, algo que começou com uma baita explosão e revolucionou a cena metálica no mundo todo.

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E inevitavelmente, no ano seguinte Phil Anselmo se afastou da banda, um dos fatos que ocasionou o fim. O cara seguiu em duas boas bandas, Down e Superjoint  Ritual, mas que pouco tinham a ver com o Pantera, mesmo fazendo um trabalho de qualidade indiscutível.

Guiado por Demônios (By Demons be Driven…)

E a história foi ainda cruel depois de tudo que se passou. Alguns diriam que foram as consequências de tudo que a banda pregou em sua doutrina destrutiva nos áureos anos de sucesso, mas eu prefiro acreditar que foram tristes fatalidades, as quais todos os músicos de grandes bandas estão sujeitos.

Phil Anselmo havia alcançado um nível de seu vício em heroína que acabou por afetar suas relações, principalmente com seus colegas de banda, e isso ainda perdurou depois do fim. Confusões com o Damageplan, um dos projetos que vieram depois, foram levadas à imprensa especializada e isso gerou uma grande indisposição entre os fãs, culminando em um trágico resultado. Em 8 de dezembro de 2004, um fanático chamado Nathan Gale assassinou Dimebag Darrel a tiros em pleno show do Damegeplan em Ohio. No acontecimento morreram também um fã, um assistente de palco e um segurança, até um policial conseguir abater o agressor. Ao que tudo indica, o demente justificou seus atos por causa do final do Pantera e da possível falta de recursos que poderia se abater sobre Phil Anselmo, afinal “como ele poderia comprar sua heroína?”… Patético.

Recentemente o baterista Vinnie Paul, irmão de Dimebag, também nos deixou, porém em circunstâncias bem menos trágicas. Morreu em junho deste ano (2018), vítima de um infarto. Phil Anselmo segue livre de sua heroína, que quase o matou, tocando em uma banda que leva o nome de Phil Anselmo & The Illegals, que inclusive virá ao Brasil em janeiro de 2019.

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O Pantera foi um furacão que surgiu e fez sua história nos anos 90, angariando uma legião enorme de fãs. Apesar de tudo de ruim que acompanhou a banda, merece atenção de todo mundo que curte metal e com certeza é uma aquisição valiosa, mesmo tendo acabado em circunstâncias desagradáveis.

Ficaram os ótimos trabalhos para figurar na eternidade do Metal, ao lado de coisas como Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica e Megadeth, entre muitas outras bandas. Vale a pena conhecer para quem está começando e para quem é veterano, é mais um medalhão brilhando em uma galeria onde coisas extraordinárias já fazem parte de uma vida de peso e inspiração.

Marcos Falcão.

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