Roger Waters em São Paulo – Leia uma visão inteligente!

Olá amigos, estive no show do dia 09 de outubro e, como de praxe, é óbvio que devo fazer uma resenha honesta do que foi o espetáculo, independente de qualquer coisa. No entanto, ao terminar de escrever o rascunho, fui surpreendido por um texto fantástico no Facebook.

O amigo Daniel Cot fez uma análise sensacional e inteligente do que foi o espetáculo, captando aspectos que nem mesmo eu havia percebido, algo realmente que só um verdadeiro fã do Pink Floyd e de tudo que decorre desse tema seria capaz de escrever.

Por esse motivo, e com a permissão dele, resolvi publicar aqui não a minha, mas a resenha dele, que percorre um caminho diferente do trabalho que costumo fazer, conseguindo captar a alma do espetáculo, de todo o trabalho do artista e de todos os motivos que fazem Roger Waters pensar do jeito que pensa.

Portanto se quiser, leia. Deixe suas convicções um pouco de lado e, como fã de um dos maiores trabalhos do mundo (lembre se que o Pink Floyd tem disco de Urânio em sua história!), tente entender a obra, afinal é a arte que fala mais alto em todos os sentidos!

Aí vai…

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Fiquei aqui pensando se deveria ou não falar sobre o que aconteceu ontem no show do Roger Waters, as vaias de uma parcela (menor, diga-se de passagem) do público quando ele estampou no telão #elenão.

Por ser algo divertido, decidi, sim, escrever. E vou me basear nos próprios álbuns e músicas que rolaram no show.

Quem me conhece sabe que sou um GRANDE fã de Pink Floyd. Já ouvi e reouvi todos os álbuns algumas centenas de vezes. Estudo e analiso a obra da banda desde os meus 13 anos mais ou menos. Portanto, estou certo que posso falar sobre o assunto de forma bem profunda.

Então vamos lá.

A turnê Us + Them, tem como base 3 discos do Pink Floyd. O The Dark Side of the Moon, o Animals e o The Wall. Lançados respectivamente nos anos de 1973, 1977 e 1979. A essência do show é ser um manifesto pela resistência às barbáries que acontecem no mundo. Fome, tortura, guerras, assassinatos, exploração predatória de pessoas e recursos, enfim, tudo aquilo que oblitera vidas inocentes. Essa é uma temática recorrente na história da banda, que sempre se posicionou e escreveu sobre esses assuntos de forma bastante radical.

Vamos então falar um pouco sobre esses três álbuns e como a mistura deles fomentou a ideia da turnê.

*The Dark side of the Moon*:
O Dark Side é um álbum em que o Pink Floyd faz uma alegoria sobre as principais fraquezas e sentimentos reprimidos que a existência humana traz de forma intrínseca consigo. O disco trata de assuntos como tempo de vida, trabalho, loucura, dinheiro e como nos relacionamos no nosso âmago com essas coisas. É um disco extremamente complexo, pois ele não trata desses assuntos de maneira direta. Ele, na verdade, trata do sentimento humano em relação a esses assuntos. A própria ideia da icônica capa traz isso. Um feixe de luz branca (nossa vida) sendo dissecado por um prisma (o próprio disco) que mostra várias cores (nossos vários sentimentos em relação à vida). Meio arrogante e megalomaníaco, eu sei.

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*The Animals*
O Animals é o disco mais incompreendido de toda discografia do Pink Floyd. É uma releitura do livro A revolução dos bichos do George Orwell. Se não leu ainda, leia. Vai te ajudar muito a entender algumas coisas que rolam por aí. O álbum é composto basicamente de 3 músicas. Dogs – cães que são uma representação da polícia e do exército, e como eles tiram sua liberdade por meio da força. Pigs – os porcos que são os governantes (RIP Bola de Neve), que fala sobre como eles usam o poder para benefício próprio em detrimento da vida dos menores que eles. E Sheep – as ovelhas, que são as pessoas reprimidas pelos cães e pelos porcos. A grande diferença entre o livro e disco é que, ao contrário do livro, as ovelhas matam os cães e tomam o poder dos porcos. Por conta dessa mensagem, muita gente na época, mais conservadora, deu o apelido de Punk Floyd à banda.

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*The Wall*
Talvez o álbum mais conhecido do Pink Floyd. Ele é na verdade uma ópera em forma de Rock. Vale a pena ver o filme, caso queiram. The Wall, é a história de um menino que perde o pai na guerra, é superprotegido e mimado pela mãe, sua inspiração artística é suprimida na escola, sua sexualidade reprimida, sua esposa o abandona por um ativista dos direitos humanos. Com isso, ele perde a noção da realidade e se esconde atrás de uma ilusão. (o muro). Em sua ilusão, ele se torna um ditador autoritário que luta para vingar tudo aquilo que o fez sofrer durante sua infância/juventude. O problema é que em nenhum momento fica claro o que é realidade e ilusão. No final, o juiz (opinião pública) o sentencia a ser exposto (suas angústias internas e autoritarismo) a todos seus semelhantes.

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Agora sobre o show. 
Desde o começo o telão mostra imagens extremamente pesadas. O Roger Waters faz uma intersecção entre essas 3 ideias (amargura humana, opressão e autoritarismo) com músicas específicas dos 3 álbuns, e mostra ao público o que isso gera. No caso, pessoas morrendo, tortura, miséria, destruição do planeta e por aí vai. A todo momento aparece criança esquelética, tumbas, pessoas mutiladas, gente morta e pessoas rindo disso. Ele dá cara aos culpados. Mas não, não é só um lado. Aparece no telão a Coreia do Norte. Cuba, Alemanha Nazista, Israel, EUA, União Soviética, Reino Unido e tudo quanto é lugar e gente que mata outras pessoas seja pelo poder, seja pelo dinheiro. Essa é ideia central do show. Mostrar o que acontece, quem são os culpados e gritar por resistência a isso. DE TODOS OS LADOS. Não é esquerda ou direita. É democracia ou autoritarismo. É vida ou morte.

Ele não fez campanha para o PT. Ele fez campanha contra tudo e todos que matam, torturam, escravizam pessoas. E para seu azar, hoje no Brasil, quem representa isso é o Capitão.

Um exemplo. A música Dogs, que toca no show, é acompanhada de imagens de exércitos e polícias matando livremente no mundo, enquanto os líderes riem e brindam com champanhe à “vitória”.

Quando o porcão começa a sobrevoar a pista (foto). Com frases de ordem e dezenas de mensagens subliminares ali, todo mundo aplaudiu. Sem perceber que aquele porco é na verdade o ditador, o mega empresário, o neo fascista, o comunista, o cara que defende tortura, que não respeita mulheres, nem homossexuais (tem frases específicas sobre esses temas “pixadas” no porco) e toda aquela pessoa que mata gente, para permanecer no poder.

Até aparecer #elenão no telão, essa parte do público NÃO ENTENDEU a mensagem.

Na realidade, nem precisava ter colocado a hashtag lá. Tudo o que estava sendo mostrado é um ato de resistência a tudo que o Bolsonaro representa. Mas as pessoas: 
1- Não conhecem a obra.
2- São burras demais pra entender. São ovelhas mansas pastando vagarosamente, ciente de um certo desconforto no ar. (trecho da letra de Sheep – que não tocou no show =( ).

E agora vem a parte divertida. Quando as pessoas vaiaram o Roger Waters pelo #elenão elas na verdade estão comprovando tudo o que o show mostrou. É a prova concreta da sua amargura e raiva (Dark Side). Da falta de entendimento e manipulação que sofrem (Animals) e por fim, da onda autoritária, na qual um artista passando uma mensagem contrária à sua deve ser vaiado (The Wall). E isso leva à vitória de um porco que as usam e roubam suas vidas.. E elas amam o porco. #fuckthepigs

 

Foi um baita show. E veio em um excelente momento. Estarei lá hoje de novo, rindo das ovelhas.

Daniel Cot.

Sacou a coisa toda…

Breve publico minha resenha, seguindo um outro aspecto. Fique ligado!

Marcos Falcão.

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